O Rotha Cultural tem a honra de apresentar as obras vencedoras da mais recente edição do Prêmio Louis Ensch 2025: Em Nome da Memória.
Com a lente da Fotografia e tinta da Literatura, os participantes, sobretudo os vencedores, cumpriram a missão de resgatar, homenagear e dar voz às histórias que moldam nossa identidade cultural e a memória coletiva.
As fotos, crônicas e poema vencedores do Prêmio, capturaram a essência dos patrimônios históricos e as histórias de Monlevade! Em primeiro lugar, a crônica Vila da Eternidade, de Erivelton Braz traz pela memória no bairro Vila Tanque, onde o autor nasceu. Confira:
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VILA DA ETERNIDADE
O zumbido dos aparelhos formava uma espécie de sinfonia mecânica, interrompida pelos bip’s compassados do monitor. Naquele leito de CTI, a cada gota de soro que descia pelo tubo, contraditoriamente, a vida parecia escorrer silenciosa. O corpo, cansado, pedia o repouso eterno, mas a mente, teimosa e inquieta, insistia em permanecer desperta.
Assim, de olhos semicerrados, ele já não via as paredes brancas nem ruídos apressados lutando pela sua existência. O mundo à sua volta dissolvia-se etéreo. Entre o torpor dos remédios e a claridade das lembranças, despertava-se outra realidade: uma manhã de sol na Vila Tanque, na Monlevade de sua infância.
O cheiro de carvão dos altos-fornos misturava-se ao aroma do café recém passado na casa dos pais. Era menino outra vez, correndo descalço pelas ruas estreitas da Vila Operária desviando das bolas improvisadas com meias e toucas das irmãs mais velhas. A pelada só terminava quando a voz materna ecoava: – Ô, menino, vem logo pra dentro!
Uma enfermeira pegou seu braço para aplicar a medicação, mas ele não estava mais ali, em BH, mas no Hospital Margarida. No consultório, doutora Deia, de branco, estetoscópio ao pescoço, atendia com firmeza e doçura. A garganta ardendo… a febre. O remédio veio em forma de uma dolorosa injeção de benzetacil.
As memórias se entrelaçavam com a realidade do CTI. Por entre médicos e enfermeiros ele tentava enxergar o jogo. Agora, driblava-os para chegar ao Estádio Louis Ensch. A grama verde faiscando sob o sol, as linhas da cal brilhando. O grito da arquibancadas enchia a cidade com os nomes que se tornaram lendas: Vaccari, Bené, Canhoto… O Metalúrgico marcava um gol, e com ele pulsava o coração de Monlevade inteira. Alguém ajeitou os lençóis, mas ele já não sentia. O som do CTI se confundia com os gritos de “olé”.
Entre o sono e o acordar, estava no Social Clube, em um baile de carnaval. Zé Teco e seu conjunto entoava marchinhas e sambas. Serpentinas e o perfume Rodouro eram lançados no ar. Ele, jovem pirata de tapa-olho, puxava pela mão uma odalisca para fora dali. Os corações acelerados no compasso de: “Se você fosse sincera, óóóó Aurora”. À medida que subiam a escada circular, saíam do clube, a música ia ficando para trás, até o silêncio cúmplice do portão de ferro do Cemitério Histórico, onde trocaram um beijo tímido.
As cenas vinham em sequência, como se um projetar rodasse dentro de si. A imagem da casa azul dos pais, o portão baixo rangendo ao abrir, era nítida. Ao longo das ruas pequeninas, casinhas de madeira, iguais, alinhadas.
A vida simples e sem disfarces. Viu seu pai chegando da Usina, subindo a Avenida Contorno com os companheiros, trazendo suor no rosto, esperança no peito e nas mãos as garrafinhas com o saboroso leite do lactário. Sorriu. De repente, o chamado urgente por dona Carmem, a parteira de todas as horas, que saiu apressada para ajudar mais uma criança a nascer na rua de baixo.
Caminhava, agora sem nenhuma dor, pelas ruas do bairro amado. Os vizinhos de outrora, que ele não via há anos, estavam ali de novo, saudando-o como se eles jamais tivessem partido. Os meninos ainda jogavam bola nos campinhos e nas ruas. O clube preparava mais um baile. O cemitério guardava segredos e memórias, dos pioneiros, dos escravizados de Monlevade, dos amores juvenis.
Ali, no limiar entre dois mundos, ele compreendeu.
O passado não era ausência, nem sombra. Existia. Permanecia vivo como disse William Faulkner: “O passado nunca está morto. Nem sequer passou”.
E, quando se reconheceu de volta à Vila Operária onde se criou, percebeu que já não havia corpo fatigado, nem tubos, nem monitores, nem médicos apressados. Havia apenas pertencimento. Havia outra vida e ele se fundiu a essas lembranças. Porque ali, naquele pedaço de chão, ele nunca deixou de viver.





