A poesia de Affonso Romano de Sant’Anna ecoa no STF pela voz da ministra Cármen Lúcia

Ministra cita poeta mineiro e outros escritores em seu voto no Supremo Tribunal Federal

Em meio ao rigor técnico de um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra mineira Cármen Lúcia surpreendeu ao abrir espaço para a força da Literatura. Em seu voto sobre a trama golpista e que formou maioria pela condenação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e outros réus, na tarde desta quinta-feira (10), ela citou versos do poeta mineiro Affonso Romano de Sant’Anna, declamando trechos do emblemático poema “Que país é este?”: “Uma coisa é um país, outra um fingimento. Uma coisa é um país, outra um monumento. Uma coisa é um país, outra o aviltamento”, declamou.

A ministra lembrou também o escritor e jornalista Afonso Borges, outro nome fundamental da cena cultural de Minas e do Brasil. Conforme explica, ele indicou a ela o livro do poeta Afonso Romano de Santana.  Criador do projeto Sempre um Papo e idealizador de diversas festas literárias, Borges tem sido, há décadas, um incansável articulador de encontros entre autores, leitores e ideias.

O gesto ultrapassou a formalidade jurídica e trouxe à cena a potência da palavra poética como reflexão crítica e sensível sobre o Brasil. A pergunta lançada pelo poeta nos anos 1980, ainda tão atual, ressoou na mais alta Corte como um convite à consciência coletiva: que país estamos construindo?

Mais que uma citação, foi um ato de reconhecimento à importância da cultura como instrumento de pensamento e transformação. Cármen Lúcia, com sua delicadeza mineira, mostrou que justiça e poesia podem se encontrar na busca por um país mais lúcido e humano.

Confira o vídeo com trecho do voto da ministra:

Outros autores

Além do poeta mineiro, a jurista também mencionou a obra “História de um Crime”, do francês Victor Hugo. Numa conversa, dois personagens discutem a sobre a legitimidade de uma tentativa de golpe de Estado, percorrendo temas como democracia, relações de poder e autoritarismo.

Posteriormente, a ministra do STF ainda citou outro livro, “A Máquina do Golpe”, da também mineira, professora Heloisa Murgel Starling. “Golpes eclodem em uma dinâmica de crise onde se beneficiam seu protagonistas, capazes de entender que estão diante de uma circunstância institucional com potencial disruptivo”, parafraseou.

De forma complementar, para complementar seu voto, Carmem Lúcia citou a obra de Newton Bignotto, “Golpe de Estado: História de uma ideia”. “Se uma das condições para o sucesso de uma conspiração é manutenção do segredo das tratativas, do lado dos que as combatem, desvelar a trama dos conspiradores para o grande público é, ao mesmo tempo ,um passo essencial cheio de riscos, disse a jurista.

Confira o poema:

QUE PAÍS É ESTE? [1980 – Affonso Romano de Sant’Anna]

1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno “Avante”
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um “berço esplêndido” para um “futuro radioso”
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

Deveria derribar aflitos mapas sobre a praça
em busca da especiosa raiz? ou deveria
parar de ler jornais
e ler anais
como anal
animal
hiena patética
na merda nacional?
Ou deveria, enfim, jejuar na Torre do Tombo
comendo o que as traças descomem
procurando
o Quinto Império, o primeiro portulano, a viciosa visão do paraíso
que nos impeliu a errar aqui?

Subo, de joelhos, as escadas dos arquivos
nacionais, como qualquer santo barroco
a rebuscar
no mofo dos papiros, no bolor
das pias batismais, no bodum das vestes reais
a ver o que se salvou com o tempo
e ao mesmo tempo
– nos trai

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

Este é um país de síndicos em geral
este é um país de cínicos em geral
este é um país de civis e generais.

Este é o país do descontínuo
onde nada congemina

e somos índios perdidos
na eletrônica oficina

Nada nada congemina:
a mão leve do político
com nossa dura rotina,

o salário que nos come e
nossa sede canina,

e a esperança que emparedam
a nossa fé em ruína,

nada nada congemina:
a placidez desses santos
e a nossa dor peregrina,

e nesse mundo às avessas
– a cor da noite é obsclara
e a claridez, vespertina.

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