Crônica dedicada à chegada da primavera – Por Erivelton Braz
Alguma coisa aconteceu em João Monlevade e ninguém ainda tinha dado fé. Envolvidos no trabalho e sem tempo para prestar atenção em coisas, digamos assim, sem importância, os homens de terno e gravata, as mulheres de vestido social, os trabalhadores de uniforme, enfim, todos os moradores daquele lugar, não perceberam que a primavera chegara adiantada.

Mas muita coisa ainda estava por vir… Não é que a chegada antecipada da primavera seja motivo para alardes. Acontece que as consequências disso, foram tornando a vida de todos um pouco melhor. Depois que os ipês floriram como nunca, iluminando os olhos dos desatentos com aquela explosão amarela, roxa e branca, muita coisa mudou.
Embora sem dar-se conta, as pessoas acabaram ficando diferentes aos poucos. O ônibus lotado de 6h15 deixou de ser um incômodo. O trânsito lento, tão comum nas primeiras horas do dia, ficara leve de repente. Ninguém falava mal e nem fazia cara de tédio para vencer a longa fila de veículos que se estendia por toda a via.
Os únicos culpados dessa mudança inusitada no cotidiano monlevadense foram os ipês. Parecia haver uma estratégia bélica naquilo tudo. Instaladas em pontos distintos do município, as árvores bombardearam com inúmeras flores e de vários lugares ao mesmo tempo, todos os homens daquele lugar. Havia um misto de luz e grandeza, pois auxiliadas por um céu infinitamente azul, as flores amarelas pareciam ainda mais numerosas e belas, o que contribuía para o sucesso da empreitada.
Todos da cidade, mesmo sem perceber imediatamente o que estava acontecendo ao seu redor, sentiram o frescor de uma vida iluminada pelas flores do ipê-amarelo. Simplesmente, passaram a sorrir com mais sinceridade, esqueceram das contas a pagar, das aflições de alma e começaram a desejar sonoros “bom dia” para quem estava ao lado. A exploração do capitalista deu lugar a uma maior tolerância às limitações humanas, aos anseios de cada um.
Nas casas, maridos e mulheres sem expectativas voltaram a se amar como o fizeram um dia, repletos da vontade de se completarem na paixão da cama. Nos hospitais, a doença deu um tempo e mesmo os internos mais graves puderam sorrir como crianças diante daquela inusitada onda de flores amarelas. E isso era só o começo.
Na parte da tarde, ainda sem que a felicidade tivesse ido embora, os ipês engrossaram a artilharia e prepararam algo que ninguém tinha visto em lugar algum: e uma chuva de flores caiu naquela cidade. Sem que o tempo se fechasse com nuvens carregadas e ainda, sem que o sol perdesse o brilho, pétalas amarelas vieram de todos os ipês, como que abençoando aquele povo que se esquecera de como é bom ser feliz.
Caindo sobre os telhados das casas, espalhando-se pelo chão, pelas ruas e sobre os passantes da avenida principal, as flores deixaram o ar mais leve e perfumado. Nessa hora, não houve quem não saísse de casa, abandonando os escritórios e até a área de produção da Usina para brincar como criança, em meio às flores amarelas que chegavam de todas as direções. No meio da diversão inesperada, as gargalhadas eram uníssonas e músicas carnavalescas começaram a ser tocadas nos altos falantes do comércio. Todos se esqueceram de que era segunda-feira à tarde e organizaram uma imensa festa. As ruas ficaram cobertas de uma camada grossa de flores miúdas, como um tapete.
Nas calçadas, homens de mau humor tiraram a cara amarrada naquele instante e rolavam como se estivessem num parque de diversão. Inimigos políticos deram-se as mãos e prometeram articular um projeto de melhoria de vida da população, sem dar moral à politicagem e sem visar o benefício próprio. A alegria foi geral. Depois de tanta brincadeira e daquela mudança de hábito inesperada, o cansaço os rendeu. Mas ninguém da cidade quis ir para casa.
Preferiram dormir no meio daquele amarelo ouro que veio das árvores, tendo apenas aquela suave textura como cobertor. A chuva dos ipês diminuía gradativamente, até que a cidade adormeceu por completo. Eles iriam acordar no outro dia, com uma ressaca de felicidade que os deixaria mais humanos e melhores para o convívio social por todo o sempre. Tudo por causa das flores.
Texto do livro “Entre Linhas: Crônicas, Histórias e Memórias de Monlevade que pode ser acessado através do link: https://rothacultural.com.br/wp-content/uploads/2024/11/Entre-Linhas.pdf






