Sexta-feira 06 de Março de 2026

E lá se vai mais um dia…

*Por Daniel Bahia

E lá se vai mais um dia e, com ele, o grande Lô Borges. A notícia da sua partida fez o tempo voltar, como se um velho vinil começasse a rodar de novo. Vieram à mente as montanhas de Minas, os amigos, os acordes, o som que nasceu livre e virou história.

Foto: flickr – creative commons / Courtney Carmody)

Assim como foi influenciado pelo vento mineiro e pelas esquinas de Divinópolis e Paraisólis, Lô também se alimentou de mundos diversos: The Beatles, Neil Young, Caetano, Gil, Chopin. Misturou tudo e devolveu ao mundo algo novo, um som com cheiro de terra molhada e o brilho do céu noturno.

Tinha apenas dezessete anos quando, ao lado de Milton Nascimento, Toninho Horta, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos e a turma do Som Imaginário, gravou o disco que mudaria tudo: Clube da Esquina (1972). Um álbum duplo que não cabia em rótulos: era MPB, folk, psicodelia, pop, barroco e jazz, tudo junto e misturado, como a própria vida.

É impossível escolher uma canção só. “O Trem Azul”, “Cravo e Canela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem na Janela”, “Clube da Esquina II”… Cada uma é uma janela aberta para um mundo diferente.

O jeito de Lô compor era só dele. Harmonias que pareciam simples, mas guardavam segredos; outras, complexas, mas leves como o vento da Serra. “Clube da Esquina II”, por exemplo, é feita de estrelas! Uma melodia que caminha entre o céu e a terra, entre o mistério e a ternura.

E há também o “Disco do Tênis”, seu primeiro voo solo. Um álbum peculiar, cheio de detalhes e liberdade, que virou culto. Décadas depois, até Alex Turner, do Arctic Monkeys, confessaria ter se inspirado nele.

Como músico, não consigo deixar de sentir essa influência de perto. Sempre que toco suas canções, seja nas aulas, nos shows ou em uma simples roda de amigos, descubro caminhos novos, harmonias escondidas, gestos sutis que revelam o quanto Lô era grandioso. Ele é, e sempre será, uma das minhas maiores referências musicais.

Lô Borges foi desses artistas que não pertencem a um tempo, pertencem à eternidade. Sua música é estrada, montanha, esquina e pôr do sol. E hoje, quando o silêncio chega, ele parece dizer lá de cima, com sua voz mansa: “E lá se vai mais um dia…

(*) Daniel Bahia é músico, fã de Lô Borges, dentre outros gênios da guitarra, e fundador da Daniel Bahia Escola de Música

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