Jornalista por ofício e escritor por vocação, Erivelton Braz construiu sua trajetória no ponto de encontro entre a apuração dos fatos e a escuta sensível das narrativas humanas. Graduado e mestre em Letras, com atuação marcante na imprensa do interior de Minas Gerais, ele transita com naturalidade entre a objetividade da redação jornalística e a densidade crítica da análise literária. Em sua escrita, está o “olhar de cronista”, atento às inquietações do nosso tempo.
É justamente desse lugar que nasce sua leitura de A Sombra da Mentira, romance de estreia do escritor belavistano Rodrigo Sena Magalhães. Ao analisar a obra, Erivelton reconhece nela um território de diálogos entre verdades, ficção e a atmosfera sombria do romance noir. Afinal, o que é a verdade? O que é a mentira? Além de apresentar o livro, a resenha propõe uma reflexão sobre o nosso tempo!
Confira:
Entre o fato e a ficção em A Sombra da Mentira
(*) Por Erivelton Braz
A Sombra da Mentira, romance de estreia do escritor belavistano Rodrigo Sena Magalhães é uma grata surpresa. Para quem, como eu, transita entre a redação de jornal e as salas de aula, encontrar uma obra que articula a secura do jornalismo investigativo com o lirismo sombrio do estilo noir é a confirmação de que a literatura de ficção segue pulsante, inquieta e necessária.
Ambientado em uma Belo Horizonte tensa e de atmosfera sombria, o romance nos apresenta Olga A., jornalista e cronista cuja escrita provoca reações diversas e inesperadas. Ao denunciar a ineficiência policial diante de uma série de crimes brutais, ela acaba, involuntariamente, nomeando o algoz: o “Matador de Madames”.
A palavra aqui, não é apenas registro do real, mas se torna gesto criador. O que se inicia como denúncia na imprensa, transforma-se em um jogo perigoso, em busca da imortalidade biográfica. Na trama, há também um editor que está à beira do abismo e uma delegada que carrega o peso do sobrenome, como é bem típico em Minas…
Com esses elementos, Rodrigo Magalhães demonstra uma maturidade narrativa em se tratando de um romance de estreia. Sua prosa dialoga com a precisão econômica de Ernest Hemingway e a “brutalidade” urbana, além dos submundos mostrados por Rubem Fonseca. A trama tem ainda os elementos clássicos do gênero policial: assassinatos, pistas falsas, traições e reviravoltas que funcionam como andaimes para algo mais profundo.
O livro traz um olhar psicológico que dialoga com arquétipos junguianos, o que ajuda a entender as identidades dos personagens. Assim, por exemplo, o autor constrói um antagonista que ultrapassa a figura do vilão caricato. O “Matador de Madames” retira máscaras e também imprime maquiagens para esconder a verdade. Em alguns momentos, a pergunta que ecoa não é “quem matou?”, mas “o que escondemos para continuar vivendo em sociedade?”.

Outro ponto que chama a atenção, é o papel de Belo Horizonte como personagem. Tal qual Roberto Drummond, outro mestre da literatura nacional, a cidade, seus espaços, edifícios, ruas e avenidas pulsam e são importantes para entender o contexto narrativo.
O típico silêncio e a discrição dos mineiros, tão presentes em nossa identidade cultural, assume aqui contornos de cumplicidade perturbadora. Soma-se a isso uma potente dimensão metalinguística: Olga, a cronista, é tragada pelas próprias crônicas.
A banalidade do falso
O título do livro é um convite à reflexão sobre o nosso tempo. A Sombra da Mentira toca em uma ferida aberta da contemporaneidade: a normalização da falsidade. Em uma era marcada por fake news, narrativas fabricadas e sensacionalismo, a mentira deixou de ser exceção para se tornar método. No romance, ela surge como névoa constante, encobrindo jogos de poder, vaidades e interesses escusos.
Rodrigo Magalhães escreve com a autoridade e mostra que, na trama, os fatos podem ser perfeitamente manipulados, dados podem ser ajustados, versões podem ser vendidas. Mas a “sombra”, permanece e deixa dúvidas para tantas outras interpretações.
“Para matar os monstros, bala de prata. Para esconder a verdade, maquiagem”, diz o autor. A frase sintetiza o drama íntimo da atualidade. Vivemos em uma vitrine de aparências, enquanto, nos bastidores, o silêncio grita verdades que insistimos em não ouvir. Recomendo a leitura de A Sombra da Mentira, pois é uma trama que nos agarra pelo colarinho, como fazem os grandes romances do gênero.
O livro pode ser adquiro no site da editora Patuá
(*) Erivelton Braz é graduado e mestre em Letras, escritor, jornalista, professor e criador do Rotha Cultural




