Projeto idealizado pelo artista e cineasta Pablo Lobato chega ao terceiro ano reunindo cinema, brincadeiras, formação, agroecologia e patrimônio imaterial em uma obra construída a partir das relações humanas
O que acontece quando uma obra de arte deixa de ocupar apenas galerias e museus para passar a existir nas relações entre as pessoas? É essa a pergunta que move a Escultura Comunitária Bárbara de Cocais, projeto idealizado pelo artista visual e cineasta Pablo Lobato, que, pelo terceiro ano consecutivo, promove uma extensa programação cultural entre os municípios de Barão de Cocais e Santa Bárbara, no Médio Piracicaba.
Longe da ideia tradicional de escultura, a proposta entende que sua matéria-prima são os encontros, o tempo, a escuta e o cuidado. Em vez de pedra, bronze ou madeira, a obra é moldada pelas experiências compartilhadas entre moradores, artistas, educadores, agricultores, crianças e famílias.

Desde 2024, a iniciativa vem ocupando escolas, distritos, praças, quintais e espaços comunitários com atividades gratuitas que transitam entre arte, educação, antropologia, infância, música, agroecologia e cinema. A sétima arte, aliás, tornou-se um dos principais instrumentos de aproximação entre o projeto e as comunidades.
Programação que nasce do território
A agenda de 2026 reforça esse diálogo com o cotidiano das comunidades. No dia 13 de agosto, Santa Bárbara recebe a oficina “Brincar para Escutar e Esculpir o Mundo”, conduzida pelo educador Mestre Roquinho, reconhecido nacionalmente pelo trabalho voltado ao desenvolvimento humano. A atividade propõe refletir sobre o brincar como linguagem fundamental da infância e da formação das pessoas.
Entre os dias 19 e 23 de agosto, acontece a terceira edição do Festival Bárbara de Cocais, que transforma Barão de Cocais e Santa Bárbara em um grande circuito de encontros culturais, reunindo sessões de cinema, formações, oficinas e experiências coletivas. Outro destaque da programação é o curso de construção e prática do pífano, ministrado por Cleisson José, músico de Barão de Cocais, e pelo mestre popular Geraldo Sabiá, de Sumidouro. A iniciativa surgiu justamente de um encontro promovido pelo projeto e convida crianças, jovens e adultos a aprender não apenas um instrumento, mas também um modo coletivo de produzir conhecimento por meio da convivência.
Em setembro, a programação chega ao povoado de Córrego da Onça, em Barão de Cocais, com uma sessão comunitária de cinema e uma pesquisa voltada às cantigas da infância, buscando preservar memórias afetivas e manifestações da cultura popular. Outra frente de atuação acontece no campo. Desde julho, o coletivo Casimira Agroecologia conduz um mutirão de plantio e aprendizagens agroflorestais envolvendo estudantes da Escola Estadual Efigênia de Barros Oliveira. A iniciativa, realizada em André do Mato Dentro, aproxima educação ambiental, agricultura e participação comunitária.
Arte como experiência coletiva
Muito além da programação anual, a Escultura Comunitária se consolida como uma experiência continuada de criação artística. Nas duas primeiras edições do Festival Bárbara de Cocais, o projeto promoveu salas temporárias de cinema, palestras com importantes pesquisadores e pensadores brasileiros, oficinas de formação, espaços dedicados ao brincar livre e uma creche parental pública concebida como intervenção artística.
Entre os convidados que passaram pelo projeto estão nomes como Viviane Mosé, Leda Maria Martins, Virgínia Kastrup, Gandhy Piorski, Gustavo Jardim, Graziela Kunsch, Lucilene Silva e o próprio Mestre Roquinho, compondo uma programação que aproxima diferentes áreas do conhecimento. Ao longo de 2026, outras ações já foram realizadas, entre elas oficinas sobre desfralde respeitoso, narração de histórias para a primeira infância e mostras itinerantes de cinema que levaram filmes gratuitamente para praças, bairros, distritos e comunidades rurais.
“Obra aberta”
Para Pablo Lobato, a Escultura Comunitária não possui uma forma definitiva e segue acompanhando as transformações do próprio território. Segundo o artista, o projeto reúne pessoas de diferentes gerações e profissões em torno de experiências capazes de fortalecer vínculos comunitários por meio da arte. “O envolvimento cresce a cada ano. Crianças, famílias, educadores, artistas, agricultores e estudantes acabam se encontrando nas diferentes ações. É uma obra construída coletivamente, que se transforma junto com as pessoas”, observa.
O artista revela ainda que já desenvolve uma segunda experiência, denominada Casa Manto, voltada às políticas públicas de acolhimento e às relações entre arte e cuidado. A proposta mantém o mesmo princípio da primeira escultura: não reproduzir modelos, mas permitir que cada território descubra sua própria forma de criar e conviver. Produzida pelo Claroescuro Studio, a Escultura Comunitária Bárbara de Cocais conta com patrocínio da MR Mineração, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, e segue ampliando uma experiência rara no cenário cultural brasileiro: transformar o cuidado em linguagem artística e fazer do território a própria obra.



