Quando a palavra sangra e cura ao mesmo tempo

Poeta monlevadense Jefferson Lima lança “Para Acordar Silêncios e Adormecer Fantasmas”, seu quarto livro e convida a um banquete poético que vai da crítica social ao amor, da espiritualidade à saudade

Em João Monlevade, o aço sempre foi mais do que matéria-prima, é identidade, memória, o som de fundo de gerações inteiras. A cidade cresceu entre fornos e minério, entre o calor do metal e a dureza de quem trabalha com as mãos e com a alma. Talvez por isso não surpreenda que um de seus filhos tenha escolhido forjar palavras. Jefferson Lima é poeta. E como todo poeta de verdade, não escolheu isso, foi escolhido. Criado no bairro Satélite, em Monlevade, onde viveu até os 24 anos, Jefferson carregou a cidade consigo quando se mudou para Belo Horizonte e, mais tarde, para Santa Luzia. A geografia pode até ter mudado. Mas a voz, não.

Trajetória

Jefferson Lima estreou na literatura em 2017, com o livro “Se For Poesia”. Quatro anos depois, em 2021, veio “Sobre os Nossos Dias e Alguns Desejos”. Em 2022, nasceu “Meu Grito”, esse de poemas e contos. Os livros estão disponíveis na Biblioteca Pública de João Monlevade. Todos os livros saíram pela Editora Delicatta, segundo Jefferson, parceria que se renova agora no quarto título. Ao longo do caminho, o poeta marcou presença nas Bienais de São Paulo de 2018 e 2022, na Bienal de Belo Horizonte de 2024 e na Fliminas de 2026. Uma trajetória construída passo a passo, bienal a bienal, poema a poema.

50 anos

Agora, chegando aos 50 anos, Jefferson Lima presenteia a si e aos leitores com o novíssiomo “Para Acordar Silêncios e Adormecer Fantasmas”. O título já é um poema ao fazer um convite paradoxal: despertar o que dorme e adormecer o que assombra.

O livro, conforme o autor, celebra a vida meio-século vivida com a intensidade de quem nunca parou de olhar para o mundo com espanto e inconformidade. Nos versos que o compõem, convivem a crítica social afiada, as reflexões sobre espiritualidade, o amor, a saudade e tudo aquilo que não cabe em nenhuma categoria, porque a boa poesia sempre transborda as gavetas.

O prefácio é assinado por José França, escritor e presidente da Academia Luziense de Letras e Artes, que chamou a obra de um verdadeiro “banquete dos deuses”. A metáfora é generosa porque é exata: abrir essas páginas é sentar-se a uma mesa onde nenhum prato é seguro e onde cada um surpreende de um jeito diferente.

O que se come nesse banquete

Conforme a apresentação do livro, há momentos em que a leitura incomoda e isso é intencional. Jefferson Lima olha para o modelo educacional que falha, para o sistema político que mente, para a hipocrisia que se veste de virtude, para as guerras que a humanidade insiste em repetir como se não soubesse o desfecho e escreve sobre tudo isso sem gritar, sem panfleto, sem o tom cansativo de quem quer convencer. Ele simplesmente aponta. E a apontação dói mais do que o grito.

Mas há também momentos de uma leveza que quase engana. Versos costurados com delicadeza que celebram a mulher amada, que evocam Orfeu e o saxofone de John Coltrane, que transformam o erotismo em lirismo. Nesses momentos, Jefferson Lima é quase Bandeira aquela simplicidade que parece fácil e que só os muito persistentes conseguem. O poeta Rogério Salgado capturou bem essa dualidade: Jefferson “sabe ser crítico sem agredir, romântico sem ser piegas”. É essa tensão que faz o livro respirar que impede que a crítica vire amargura e que o romantismo vire açúcar.

Os muitos eus de um mesmo alguém

Drummond, Bandeira, Quintana. Jefferson Lima não esconde suas referências e não precisa, porque o que faz com elas é inteiramente seu. Herdou desses mestres a lição mais difícil da poesia brasileira: a linguagem simples não é a linguagem fácil. É a mais trabalhada, a mais honesta, a que mais exige do poeta porque não permite esconderijo. Nos seus próprios versos, há uma declaração de identidade que diz tudo: “Sou alguém em constante transformação / sou muitos eus dentro de um alguém / não sou somos eis o meu cartão / juntos, construímos versos, telas e sonhos.” Jefferson é um poeta que se reconhece plural. Que não se fecha numa persona, numa causa, num estilo.

Que entende a escrita e o blog: https://rabiscoepoesia.com, onde mantém textos autorais como lugar de travessia, não de chegada. Porque essa é a alquimia mais antiga da poesia: o que machuca também cura. O que pesa também alivia. E Jefferson Lima, filho do aço e das palavras, nascido no Satélite e criado entre Minas, sabe disso melhor do que ninguém.

Lançamento no aniversário

A data escolhida para o lançamento é o dia 22 de agosto, aniversário de 50 anos do poeta. Para Acordar Silêncios e Adormecer Fantasmas chegará ao mundo numa festa dupla: de vida e de literatura. O evento acontece às 10h30, na Casa da Floresta, no bairro Floresta, em Belo Horizonte. O livro pode ser adquirido diretamente com o autor pelas redes sociais @jeffersonlima7.6, e os títulos anteriores estão disponíveis pelo mesmo canal.

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