Montagem de Nelson Rodrigues estreia no CCBB Belo Horizonte e encerra trilogia do grupo mineiro dedicada ao dramaturgo
Um gesto de compaixão pode se transformar em prova de culpa? É a partir dessa pergunta que o Grupo Oficcina Multimédia (GOM) revisita O beijo no asfalto, clássico de Nelson Rodrigues que chega aos palcos em uma nova montagem para marcar os 50 anos da companhia mineira.
A estreia nacional acontece no dia 28 de agosto, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB BH), onde o espetáculo permanece em cartaz até 5 de outubro. A temporada abre as comemorações do cinquentenário do GOM e completa a trilogia dedicada pelo grupo à obra de Nelson Rodrigues, iniciada com Boca de Ouro, em 2018, e seguida por Vestido de Noiva, em 2023.
Escrita em 1960 e encenada pela primeira vez em 1961, O beijo no asfalto acompanha Arandir, um homem que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido que está morrendo: um beijo. O gesto, inicialmente marcado pela compaixão, rapidamente se transforma em escândalo. A imprensa, a polícia, a vizinhança e a própria família passam a construir uma narrativa de desvio sexual, crime e traição. A versão pública dos acontecimentos ganha mais força do que a palavra do próprio Arandir. É justamente nesse mecanismo de condenação que o GOM concentra sua nova leitura.
Quando a compaixão vira culpa
Embora a peça seja frequentemente relacionada a temas atuais como fake news, cancelamento e pós-verdade, a montagem procura ir além da comparação com as redes sociais. Para a diretora Ione de Medeiros, o que permanece atual é um mecanismo social muito mais antigo: a capacidade de uma coletividade transformar um gesto de humanidade em motivo de condenação. “A tecnologia hoje amplia a circulação da acusação, mas o mecanismo social de condenação pública continua o mesmo”, afirma.
Na peça, o jornalista Amado Ribeiro deixa de apenas relatar o acontecimento e passa a construir a história que pretende publicar. A polícia conduz a investigação para confirmar uma suspeita. A família, pressionada pela narrativa pública, passa a desconfiar daquele que deveria conhecer melhor. A mentira, assim, deixa de depender de uma única pessoa. Ela ganha força à medida que diferentes instituições e personagens passam a repeti-la. Para Ione, esse é um dos pontos centrais da montagem: “Depois que se lança uma notícia falsa, até se voltar à verdade original, uma vida já pode ter sido crucificada”.
O espetáculo também recupera o sentido do gesto de Arandir. Ao final, quando afirma que aquele beijo foi a melhor coisa que fez na vida, o personagem preserva uma possibilidade de resistência: agir com humanidade mesmo quando esse gesto contraria os códigos de moralidade e aparência impostos pela sociedade.
O palco em movimento
A nova montagem também retoma uma das características mais marcantes da trajetória do Grupo Oficcina Multimédia: a utilização do espaço cênico como parte da dramaturgia. No GOM, cenário não é apenas cenário. Objetos, estruturas, imagens, sons e movimentos participam da construção da narrativa. Em O beijo no asfalto, o palco é dividido em dois grandes territórios. De um lado, estão os espaços públicos (escritório, delegacia e áreas de circulação) marcados por estruturas verticais e simétricas. De outro, a sala familiar, com sofá, poltrona, mesa e tapete, representa inicialmente o espaço da intimidade. Mas nada permanece fixo.
A sala se aproxima da plateia, recua e se desfaz conforme a família deixa de ser um lugar de proteção. Portas, mesas e cadeiras são movimentadas pelos próprios atores, que constroem e desmontam os ambientes diante do público. “Essa mobilidade é um modo de produzir pensamento teatral. O cenário muda porque as relações mudam”, explica Ione de Medeiros. A transformação do espaço acompanha a própria tragédia de Arandir. A cidade invade a casa antes mesmo de os móveis desaparecerem. Isso acontece quando os personagens passam a enxergar o homem pela versão criada na rua, e não pela relação que tinham com ele.
O público diante da intimidade
Em determinados momentos, a sala familiar avança até o proscênio e aproxima a ação da plateia. Ione define a escolha como um “buraco da fechadura agigantado”. O espectador não participa diretamente da história, mas é colocado na posição de quem observa uma intimidade que deveria estar protegida. A opção reforça uma das características da dramaturgia de Nelson Rodrigues: o fascínio coletivo pelo segredo, pelo desejo, pelo escândalo e pela queda do outro.
Vídeo como confidência
A montagem também utiliza vídeos produzidos especialmente para o espetáculo. Diferentemente de Vestido de Noiva, em que as projeções ajudavam a construir os planos de realidade, memória e alucinação, agora o vídeo assume principalmente uma função de escuta. Os personagens dirigem-se diretamente à plateia para revelar sentimentos que não conseguem compartilhar entre si. “Como a família não escuta, os personagens falam à plateia, como pacientes num divã”, explica Henrique Torres Mourão, ator e produtor audiovisual do GOM.
Os rostos projetados em portas e estruturas do cenário ampliam a intimidade e, ao mesmo tempo, transformam o privado em público, exatamente como acontece com o gesto de Arandir, retirado de seu contexto e transformado em espetáculo.
Uma tragédia urbana
A montagem aproxima ainda O beijo no asfalto do universo da fotonovela e do melodrama, com seus segredos, revelações, suspeitas, adultério, morte e desejo interditado. A narrativa é construída em quadros sucessivos. Cada cena acrescenta uma nova versão aos acontecimentos e contribui para que a mentira ganhe aparência de verdade.
Os figurinos acompanham esse processo. As cores começam mais claras e vão escurecendo à medida que avançam a suspeita, a vergonha, a acusação e a morte social. Para Jonnatha Horta Fortes, ator e produtor do GOM, essa mudança acompanha a trajetória dos personagens: “Primeiro, há juventude, desejo, casamento, casa, planos. Depois, há suspeita, nojo, vergonha, acusação, morte social”. Na leitura do grupo, Arandir começa a morrer antes do tiro. Sua morte social acontece quando a manchete ocupa o lugar de sua palavra, quando a esposa prefere o rumor à relação íntima e quando a polícia passa a investigar não para descobrir a verdade, mas para confirmar uma culpa previamente estabelecida.
Cinquenta anos de pesquisa
A montagem de O beijo no asfalto completa a trilogia do GOM dedicada a Nelson Rodrigues. Em Boca de Ouro, de 2018, o grupo se aproximou de uma linguagem mais concentrada na força do texto, mantendo elementos de sua pesquisa visual. Em Vestido de Noiva, de 2023, cenário móvel e vídeo ganharam papel fundamental na construção da narrativa. Agora, essas experiências se encontram. Ao escolher O beijo no asfalto para abrir as comemorações de seus 50 anos, o Grupo Oficcina Multimédia reafirma uma trajetória marcada pela pesquisa de novas relações entre teatro, espaço, imagem, som e movimento. Além do que atualizar uma obra escrita há 65 anos, o espetáculo lança uma pergunta que permanece incômoda: ainda somos capazes de reconhecer a humanidade quando ela aparece fora da norma? A resposta de Ione de Medeiros aponta para uma possibilidade de resistência. “O beijo preserva uma possibilidade mínima de resistência: a de realizar um gesto de compaixão sem pedir licença ao pensamento dominante”.
Ingressos
Os ingressos estão disponíveis pelo site do CCBB e na bilheteria. A temporada terá sessões com intérprete de Libras e audiodescrição em datas específicas. A programação inclui ainda a oficina “A Prática da Rítmica Corporal do Grupo Oficcina Multimédia”, nos dias 9, 10, 16 e 17 de setembro, e um bate-papo com a pesquisadora Elen de Medeiros e a diretora Ione de Medeiros, marcado para 24 de setembro, com entrada gratuita.
Serviço
O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues
Grupo Oficcina Multimédia
Temporada: 28 de agosto a 5 de outubro de 2026
Local: Teatro I – CCBB Belo Horizonte
Endereço: Praça da Liberdade, 450, Funcionários – Belo Horizonte
Horário: 20h, de sexta a segunda
Ingressos: R$ 15 (meia) e R$ 30 (inteira)
Classificação: 16 anos
Duração: 100 minutos



