Nicolau Alves Fernandes morreu na noite desta quarta-feira, 19 de agosto, aos 99 anos. Ele completaria cem anos em 31 de agosto, doze dias depois. Partiu às vésperas do próprio centenário, como se o tempo, que ele atravessou com tanta dignidade, tivesse decidido encerrar o capítulo um pouco antes do centésimo ponto final.
De Alvinópolis para Monlevade
A história de Nicolau começa onde tantas histórias de João Monlevade começam: em outro lugar.Filho de João Alves Fernandes e Madalena Alves Martino, pais de uma família grande, com dez filhos, Nicolau era um dos mais velhos. Ele nasceu em Ponte Nova, mas a família morava em Alvinópolis, antes da mudança que definiria suas vidas. Em fevereiro de 1935, João Alves Fernandes trouxe a família para João Monlevade.
O que os chamava até aqui era o mesmo que chamava dezenas de outras famílias mineiras naquele momento: as obras da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira (CSBM) e o projeto do engenheiro luxemburguês Louis Ensch de erguer, sobre os morros da antiga fazenda de Jean Monlevade, uma das maiores usinas siderúrgicas da América Latina.
Nicolau tinha 8 anos quando chegou. A pedra fundamental da usina seria lançada em agosto daquele mesmo ano, com o presidente Getúlio Vargas presente. A cidade e o menino cresceriam juntos e essa coincidência de tempos marcaria para sempre a maneira como Nicolau se relacionou com Monlevade. Não apenas como observador, mas como um de seus participantes.
O menino que virou o dono do cinema
A família Alves Fernandes fincou raízes no comércio. Os irmãos tiveram atuação marcante na vida econômica da cidade, inclusive na relojoaria, atividade que a família exerceu na Vila Operária a partir dos anos 1940. O pai, João Alves Fernandes, tornou-se figura tão presente na memória local que seu nome foi dado à praça próxima ao antigo cinema. Uma homenagem que a cidade guarda até hoje.
Mas Nicolau tinha outros planos. Em 1961, em sociedade com o advogado Onofre Francisco de Oliveira, ele fundou o Cine São Geraldo, no bairro Carneirinhos. Era um momento de transformação: Carneirinhos ainda se urbanizava, suas ruas ganhavam calçamento e o comércio começava a encontrar seu próprio ritmo. O cinema surgiu nesse contexto como algo mais do que um empreendimento, mas como uma aposta na vida cultural de uma cidade que ainda estava se descobrindo.
O Cine São Geraldo atravessou décadas com uma programação diversificada: filmes de artes marciais, faroestes, comédias, grandes clássicos da telona. Mas o espaço também recebia formaturas, shows, peças de teatro, premiações, como o Troféu Araponga, promovido pelo jornal A Notícia nos anos 1980. Não havia evento importante em Monlevade que não passasse, em algum momento, pelo São Geraldo.
O fim das cenas e a permanência da memória
O Cine São Geraldo não sobreviveu às transformações dos anos 1980, como vários cinemas brasileiros. A televisão ganhou sinal, o videocassete levou os filmes para dentro das casas e a crise econômica esvaziou as salas de rua. O São Geraldo resistiu mais do que muitos, chegou a ser arrendado numa tentativa de retomada, mas encerrou definitivamente no início dos anos 1990.O prédio ainda teria outros capítulos. Virou igreja evangélica e antes de ser adquirido pelas Casas Bahia em 2006, que iniciou demolições e depois desistiu. O que restava da fachada foi demolido em 2013. O endereço já não guarda pedra sobre pedra do antigo cinema. Mas a memória, essa sim, resistiu a tudo.Quem foi ao São Geraldo num sábado à noite e quem sentou naquelas poltronas com um pacote de pipoca, quem viveu ali uma formatura ou um show, guarda esse espaço num lugar que nenhuma demolição alcança. E Nicolau era parte inseparável dessa memória.
O construtor
Além do cinema, Nicolau foi o nome por trás da Socintra Ltda, tradicional fábrica de tubos e artefatos de concreto instalada no bairro Cruzeiro Celeste. Durante décadas, a empresa foi parte do tecido industrial de João Monlevade e seus produtos ajudaram a construir, literalmente, parte desta cidade.O legado da Socintra continua presente de uma forma que Nicolau talvez não imaginasse: a antiga área da fábrica está sendo transformada no projeto do Monlevade Mall, um shopping center avaliado em R$100 milhões. O chão que ele construiu será o chão de uma nova era da cidade. Há uma ironia bonita nisso e também uma continuidade.
O presidente que virou benemérito
Na Associação Comercial, Industrial e de Prestação de Serviços (Acimon), Nicolau foi presidente entre 1987 e 1988. Mas sua relação com a associação não se limitou ao mandato. Foi reconhecido como presidente benemérito e o auditório principal da Acimon leva seu nome, distinção reservada a quem realmente moldou a história de uma instituição.Entusiasta do desenvolvimento abriu a primeira conta na recém criada Credmepi, cooperativa de crédito que hoje amplia negócios Brasil a fora.
Homenagens
Em 2011, a própria Acimon lhe concedeu o Mérito Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade. Na mesma época, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais o homenageou com a Medalha Desembargador Hélio Costa. Em dezembro de 2022, já com 96 anos, recebeu novamente a maior honraria do Judiciário mineiro em nível local, em reconhecimento, entre outras contribuições, ao apoio para a instalação da 2ª Vara na Comarca de João Monlevade.Também teve papel ativo no Lions Club, onde dedicou energia a iniciativas comunitárias e de assistência social.
Quase cem anos
Nicolau Alves Fernandes viveu tempo suficiente para ver João Monlevade nascer, crescer, se transformar e se reinventar. Chegou quando a usina era projeto. Viu o comércio de Carneirinhos se formar. Fundou um cinema quando a cidade precisava de cultura. Construiu uma fábrica quando a cidade precisava de infraestrutura. Presidiu a associação comercial quando a cidade precisava de liderança. Recebeu honrarias quando já ultrapassava os noventa anos e ainda estava presente, ainda era Nicolau.
Poucas biografias individuais contêm tanta cidade dentro delas.Sua partida, às vésperas do centenário, é uma perda que vai além da família. É a despedida de uma testemunha, daquele tipo raro de pessoa que não apenas viu a história acontecer, mas participou dela, deixou sua marca nela e se tornou, com o passar do tempo, parte da própria memória que a cidade carrega.
Às vezes, é disso que a memória é feita: de nomes que ficam nas paredes, de apelidos e referências de histórias que pertencem a uma família e, ao mesmo tempo, a todos de uma cidade inteira.



