(*) Sinézio Santiago
Na metade da década de 1970 e início da de 1980, um grupo de amigos se reunia sempre na varanda da casa da família Magalhães e Vasconcelos. Geraldo, Ronivaldo, Rone e outros irmãos, unidos aos amigos, tocavam violão e cantarolavam as novidades que surgiam naquela época, uma das mais ricas da música brasileira. Era bonito ver tanto entusiasmo e talento naquela turma.
Desses encontros e sonhos nasceu o Grupo Bendegó (foto), que chegou a se apresentar no antigo Cine São Geraldo. Surgiam ali os “Amigos do Clube das Esquinas”, já que o grupo se reunia nas adjacências das ruas Vitória, Juiz de Fora e Raposos, no bairro de Lourdes. Hoje, permanecem amigos de longa data: os irmãos Magalhães e Vasconcelos, os irmãos Franco, os irmãos Pena Forte – filhos da saudosa dona Preta – e a família Patrocínio, com Marcos e Regina. Também faziam parte Cláudio Mineiro (presidente do Real), Reinaldo, Sinézio, Sinhá, Tão, Carlão, Margarida, Bete, Vera, Lauzin, Marcelo Pereira, além dos saudosos Rogério Tobias e Ronildo Magalhães, entre tantos outros que se reuniam ali.
Com o passar do tempo, todos foram se distanciando, mas Geraldo Vasconcelos tornou-se regente do Coral Madrigal Roda Viva e, hoje, é maestro e secretário de Cultura da cidade de Conselheiro Lafaiete.
Dessa época também guardamos lembranças do saudoso Chico Franco e de seu filho Teíque, que compuseram diversas músicas para festivais da região; de Geraldo Di Noite, Neide Roberto, Rômulo Rás – que ainda canta e encanta em seu aconchegante espaço – e de Ricardo Monlevade. Lembramos também da Banda Magnus Som, da Banda e Corporação Guarani, do Coral Monlevade e de tantos outros artistas que contribuíram enormemente para a nossa cultura.
É difícil lembrar de todos. Monlevade deixou para trás riquezas culturais que hoje são relembradas por saudosistas de primeira qualidade, que se orgulham dessas memórias. Como não citar Francisco de Paula Santos, o popular Barcelona, verdadeiro colecionador de histórias impressas, sempre orgulhoso ao relembrá-las – um verdadeiro arquivo vivo da nossa cultura.
Outro nome de destaque é Wir Caetano, jornalista experiente que foi responsável por resgatar o acervo cultural do Sindicato dos Metalúrgicos. Luiz Ernesto de Oliveira Guimarães, com seus contos e os “Candeeiros”, também marcou época. Assim como Marcelo Melo, que administra um rico acervo em seu “Morro do Geo”, onde preserva um jornalismo satírico de uma época que muitos não viveram – e os que viveram se emocionam com essas lembranças. E há ainda Márcio Passos, fundador do Jornal A Notícia, único na região que circula de forma impressa há 40 anos, de maneira ininterrupta – um grande feito para os tempos atuais. A cultura é uma verdadeira redenção de tudo o que já foi produzido nas terras de João Monlevade.
Com o passar do tempo, surgiu também o médico, cantor e compositor Aggeu Marques, que se radicou na cidade e promoveu shows com sua banda Yesterdays, interpretando Beatles e recebendo músicos ligados ao Clube da Esquina e à MPB nacional. Mais recentemente, despontou na cidade o talentoso Bruno Felga, parceiro do saudoso Tunai e de outros grandes artistas. Às vezes canta sozinho, às vezes com sua banda. Diversidade é com ele mesmo — um grande talento de Monlevade e da região, com agenda sempre lotada e carisma que conquista o público.
Como editor do Jornal A Notícia e profissional de vasta experiência, surgiu também o Jornal Rotha Cultural, criado pelo jornalista e escritor Erivelton Braz, que além da versão impressa, conta a história de Monlevade, de seus monumentos e ruas antigas em vídeos nas redes sociais, explicando a origem de cada um. Um belo trabalho que enriquece ainda mais o acervo da nossa memória, especialmente para os mais jovens, que não conheceram a história local.
No dia 1º de outubro de 2025, Erivelton Braz lançou, na Câmara Municipal, seu mais novo livro sobre a trajetória de Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade no Brasil – uma obra que expressa, de forma romântica, toda a dedicação do jornalista à nossa história e mostra por que a nossa cultura jamais pode ser esquecida. É uma grande obra, repleta de pesquisa e documentos históricos.
Esse livro nos remete a um passado que muitos não conheciam – um romance leve e, ao mesmo tempo, cheio de aventuras. É uma leitura grandiosa e necessária, sobretudo para todos que contribuíram com o desenvolvimento de uma cidade tão acolhedora.
Para quem viveu o passado e vive o presente, o futuro há de trazer orgulho da nossa gente. Precisamos preservar nossa cultura, mantê-la viva e rica. O que passou só se vive uma vez – e depois se torna relíquia para as futuras gerações. Por isso, nunca devemos esquecer as nossas raízes. Naquela época, ainda jovem, ouvindo meus “Amigos do Clube das Esquinas”, descobri que sem cultura nós não vivemos – nos isolamos.
Valorizo muito aqueles amigos, onde tudo começou. Em destaque, parabenizo e agradeço Erivelton Braz pela belíssima obra que acabo de ler, que certamente será reverenciada e contada por gerações futuras.
Viva a nossa cultura. Viva Monlevade

(*) Sinézio Vilela Santiago é aposentado





