A vida dos escravizados nas fazendas de Jean Monlevade

(*) Erivelton Braz

A prosperidade do engenheiro francês Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade um dos pioneiros da siderurgia nacional, foi construída com mão de obra escravizada. Diferentemente de outros trabalhos, a produção de ferro na fábrica, grande referência no século XIX, dependia de um corpo de trabalhadores altamente especializado.

Inclusive, conforme registros, os escravizados eram treinados pelo próprio Monlevade para atuar nas forjas do Solar. As informações estão em pesquisas recentes e em inventários da família, revelam que a estrutura escravista adotada por Monlevade era complexa, planejada e organizada. O francês combinava estratégias de formação de famílias, incentivando a criação de famílias, qualificação técnica e mecanismos de controle para assegurar a continuidade da produção siderúrgica.

ESPECIALISTAS

Ao longo de cinquenta anos de produção, Monlevade manteve em suas terras cerca de 200 pessoas escravizadas. A siderurgia exigia domínio técnico, especialmente com o uso da forja catalã, método que demandava conhecimento preciso sobre temperatura, ritmo e manipulação do ferro incandescente.

Viajantes europeus da época, que frequentemente descreviam escravizados como “preguiçosos” ou “desmotivados”, encontraram em Monlevade uma realidade que contradizia tais preconceitos. O sucesso da produção de ferro nas terras do francês não seria possível sem a habilidade e eficiência desses trabalhadores.

O historiador Geraldo Mendes Barros, em seu livro História da Siderurgia no Brasil, Século XIX, destaca a participação dos escravizados, especialmente os africanos, na introdução e difusão da técnica de fundição em Minas Gerais. Ele afirma que, entre os cativos de Monlevade, havia até um artesão habilíssimo, capaz de fabricar máquinas de costura e relógios de parede.

GERAÇÕES

A historiadora Martha Rebelatto, em sua tese de doutorado sobre a dinâmica escravista na região, revela que Monlevade incentivava a formação de famílias ativas como mecanismo de estabilidade a renovação da força de trabalho. Ela apresenta documentos, como o inventário de Monlevade, que apontam a existência de 247 escravizados: 124 na Fazenda Monlevade e 119 na Fazenda Serra, em Tombos de Carangola. Era dessa fazenda agrícola que vinha a maior parte dos alimentos para sustentar o Solar, os escravizados e a família de Monlevade. Embora no entorno da Fábrica de Ferro também se plantasse, sobretudo batata-doce, e se criassem animais, era a Fazenda Serra que supria milho, arroz, feijão, legumes e carne.

Conforme a pesquisadora, em 1875, 62% dos escravizados viviam em famílias. Esse número é muito acima da média comum à época. Ao todo, 35% eram filhos de cativos e havia 14 “ingênuos”, crianças libertadas pela Lei do Ventre Livre (1865), permaneciam com os pais. Nas duas propriedades, conforme os documentos, havia famílias com até três gerações (avôs, pais e filhos) convivendo e morando juntos. Criados desde pequenos no ambiente das forjas, muitos desses indivíduos

tornavam-se, na vida adulta, operários valiosos, treinados para funções específicas, seguindo os passos dos pais. A tese da professora Martha Rebelatto destaca que isso constituía um “investimento” mais seguro na lógica escravista. Afinal, era mais vantajoso treinar e transmitir conhecimentos de pai para filho do que recorrer à compra constante de novos trabalhadores. Essa  estrutura familiar também representava um espaço essencial de proteção emocional e preservação de laços afetivos dentro das fazendas.

NEGOCIANDO A EXISTÊNCIA

Apesar do regime de brutalidade que caracterizava o sistema escravocrata, havia “espaços de negociação”. Um viajante relatou que Monlevade permitia que seus escravizados lavassem ouro no córrego aos domingos, podendo obter quantias significativas, uma forma de “incentivo” para trabalhos extras, inclusive em feriados. Além disso, consta que no Solar, os escravizados, ferreiros que eram, poderiam fazer as chaves da senzala.

A tese da professora Martha também aponta a boa alimentação e a atenção relativa a saúde, videnciadas pelo número incomum de idosos entre os esravizados. A longevidade não era necessariamente fruto de benevolência, mas correspondia ao interesse em manter ativos trabalhadores altamente treinados por mais tempo de vida. Assim, entre ferreiros e fundidores, a qualificação técnica se convertia em uma arma poderosa para garantir a sobrevivência. Como trabalhadores especializados, eles valiam mais e tinham melhores condições de vida do que muitos outros escravizados da época.

ALÁTÚNSE

O Projeto Alátúnse, parceria do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir), com a Fundação Casa de Cultura, grafitou, em 2024, no muro da Praça do Povo, os nomes de escravizados que trabalharam para Jean Monlevade. As informações vieram à tona após o jornalista Wir Caetano descobrir a tese da professora Martha Rebelatto. As pinturas integram ações permanentes de valorização da memória negra e de recuperação de personagens que tiveram papel fundamental na formação da Fábrica de Monlevade e, consequentemente, da cidade. Nomes da história que não podem se apagar.

(*)Erivelton Braz é Mestre em Letras,Teoria Literária e Crítica da Cultura, professor de Literatura, jornalista e escritor. Fundador da Rotha Assessoria e editor do Rotha Cultural

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