Por Erivelton Braz
No dia 18 de novembro, o Brasil lembra o aniversário de morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, grande mestre do Barroco e patrono da arte nacional brasileira. Sua arte e legado são pilares da cultura nacional e suas obras sintetizam a fé, a cultura e as contradições do Brasil colonial, marcando profundamente a identidade artística do país. O conjunto de esculturas em Minas Gerais, especialmente em Congonhas, no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, é Patrimônio Mundial da Humanidade.
Dia do Barroco Mineiro
Em homenagem ao artista, o dia 18 de novembro é o Dia do Barroco Mineiro, criado por meio da Lei 20.470, de 2012 e aprovada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Nessa data, em Minas Gerais, sua obra é tratada como devoção e patrimônio, como o responsável pela fundação da estética do Brasil. Assim, o Barroco Mineiro é reconhecido como a primeira expressão da cultura brasileira. Muitos vieram depois dele e se inspiraram em sua arte.
Por isso, não é exagero afirmar que se a Itália teve o pintor Caravaggio e o escultor Bernini como principais expoentes do Barroco,Minas teve Aleijadinho, cujas obras também são apreciadas no mundo inteiro. Ele é personagem importante da história da arte brasileira, e considerado artista símbolo da arquitetura e da escultura de estilo barroco no país.
Entre o sagrado e o país que nascia
Filho de mãe negra escravizada, chamada Izabel e do também escultor e mestre de Obras português, Manoel Francisco Lisboa, que chegou a Vila Rica, em 1720, Aleijadinho condensou na própria biografia às contradições que moldaram o Brasil.
As marcas da doença que o deformou a partir de 1777, atribuída por pesquisadores à hanseníase ou à sífilis, não impediram que produzisse uma obra vigorosa. O cinzel amarrado às mãos por seus auxiliares virou mito, mas também metáfora perfeita: a arte como superação do limite físico e social, além da mestiçagem como elemento de brasilidade.
O conjunto dos Doze Profetas, em Congonhas, e o icônico Passos da Paixão, além do traço inconfundível da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (foto), considerada por especialistas como “a obra-prima do mundo luso-brasileiro”, representam aquilo que o modernismo brasileiro viria, um século depois, a buscar: uma identidade estética própria, mestiça, de invenção genuinamente nacional. A obra de Aleijadinho, conforme especialistas, tem intensidade espiritual e teatralidade emocional.

Foto: Igreja de São Freancisco – Willian Dias/ ALMG
Legado que pulsa na arte contemporânea
A reverência ao mestre alcança artistas de múltiplas linguagens. Entre eles, o poeta e artista visual Joel da Paschoa, de João Monlevade, que dedica a Aleijadinho o poema “Em homenagem ao Mestre, meu Barroco” e obras em tela de técnicas mistas. As peças são marcadas por sensorialidade e espiritualidade e ecoam o mistério das talhas setecentistas, além do imaginário mineiro que atravessa séculos. Confira:
“Os versos que fiz
Pura imagem
Meu universo
A concha barroca
Os degraus da fé
A auréola dos Santos
Anjos querubins
Serafins arcanjos
Na procissão celeste
Ataíde pintou
Aleijadinho esculpiu
O Sacro Profano
O dourado das talhas
Ouro ouro
Puro sangue
O negro
Aromas incendiários
Dos incensos : o transe
Subir aos céus
Gozar na terra
O voou sobre as igrejas
Asas pombos anjos
Minas muitas
Gerais
Eu peregrino
De mim…
Sei que Marília e
Adélia me entendem
Meu coração sepultado num jardim
Caipira ao meio-dia
Entre dálias
Um dia estarei
Com meus pais
Dormindo
Mais nada.
As montanhas sabem
Guardar segredos.
Minas Monlevade
Um dia fui”.

Joel da Paschoa
Telas sobre papéis: Interferências, apropriações, resgates, invocações (técnica mista)

Joel da Páschoa
A gestão do gesto
Epifanias
De uma certa maneira um olhar
Construído e constituído pela busca de se fazer presente o que não é distante : a nossa busca da identidade…um caminho…uma resenha no campo plástico -poético teórico nessa investigação das entrelinhas do que foi passdo e se faz presente…passos
Caminhos ligados
interligados
Um caldeirão cultural social
Religioso
Movimentos que se gestam pela alquimia barroca/mineira
Espólio herança
Viva
Minas/ Brasil
Nascemos Império
Barroco Alma
No fundo
Inclassificáveis
O verbo a carne
O sangue
Antes que tardia

Joel da Páschoa
O poema e as obras de Joel da Paschoa conjugam, a tradição barroca, a ousadia, a espiritualidade e a memória afetiva de um Brasil profundo, reforçando que Aleijadinho não é apenas patrimônio histórico, mas fonte perene de inspiração artística e cultural para o país que se reinventa a partir de suas raízes mais autênticas.
Celebrar Aleijadinho é sempre reafirmar a importância de preservar e reconhecer uma arte que transcende seu tempo e permanece pulsante no imaginário e na alma brasileira. Assim, sua memória segue viva e atual, inspirando o presente e o futuro da cultura nacional. Até hoje, mais de séculos anos após sua morte, o mestre barroco e sua obra, permanecem como um farol para a arte e identidade brasileiras, inspirando gerações de novos artistas.
Confira as principais obras do Aleijadinho
Em Ouro Preto
Igreja de São Francisco de Assis (risco geral, risco e esculturas da portada, risco da tribuna do altar-mor e dos altares laterais, esculturas dos púlpitos, do barrete, do retábulo e da capela-mor);
Igreja de Nossa Senhora do Carmo (modificações no frontispício e projeto original, esculturas da sobre porta e do lavatório da sacristia, da tarja do arco-cruzeiro, altares laterais de são João Batista e de Nossa Senhora da Piedade);
Igreja das Mercês e Perdões ou Mercês de Baixo (risco da capela-mor, imagens de roca de são Pedro Nolasco e são Raimundo Nonato);
Igreja São Francisco de Paula (imagem do padroeiro);
Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias (quatro suportes de essa);
Igreja de São José (risco da capela-mor, da torre e do retábulo);
Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos ou de São Miguel e Almas (estátua de são Miguel Arcanjo e demais esculturas no frontispício);
Igreja de Nossa Senhora do Rosário (imagem de santa Helena); e as imagens de são Jorge, de Nossa Senhora, de Cristo na coluna e quatro figuras de presépio hoje no Museu da Inconfidência.
Em Barão de Cocais
Igreja Matriz de São João Batista. A portada é coroada com elementos em pedra sabão e uma imagem do padroeiro, obra atribuída ao Aleijadinho, que participou do projeto do Santuário e deixou suas marcas no desenho da fachada e na solução ousada para a época, posicionando as torres diagonalmente em relação ao corpo da igreja.
Em Congonhas
Igreja matriz (risco e escultura da sobre porta, risco do coro, imagem de são Joaquim).
Em Mariana
Chafariz da Samaritana.
Em Sabará
Igreja de Nossa Senhora do Carmo (risco do frontispício, ornatos da porta e da empena, dois púlpitos, dois atlantes do coro, imagens de são Simão Stock e de são João da Cruz).
Em São João del-Rei
Igreja de São Francisco de Assis (risco geral, esculturas da portada, risco do retábulo da capela-mor, altares colaterais, imagens de são João Evangelista);
Igreja de Nossa Senhora do Carmo (risco original frontispício e execução da maioria das esculturas da portada).
Em Tiradentes
Matriz de Santo Antônio (risco do frontispício).





