Sexta-feira 06 de Março de 2026

Aleijadinho é pilar da cultura nacional

Por Erivelton Braz

No dia 18 de novembro, o Brasil lembra o aniversário de morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, grande mestre do Barroco e patrono da arte nacional brasileira. Sua arte e legado são pilares da cultura nacional e suas obras sintetizam a fé, a cultura e as contradições do Brasil colonial, marcando profundamente a identidade artística do país. O conjunto de esculturas em Minas Gerais, especialmente em Congonhas,  no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, é Patrimônio Mundial da Humanidade.

Dia do Barroco Mineiro

Em homenagem ao artista, o dia 18 de novembro é o Dia do Barroco Mineiro, criado por meio da Lei 20.470, de 2012 e aprovada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Nessa data, em Minas Gerais, sua obra é tratada como devoção e patrimônio, como o responsável pela fundação da estética do Brasil. Assim, o Barroco Mineiro é reconhecido como a primeira expressão da cultura brasileira.  Muitos vieram depois dele e se inspiraram em sua arte.

Por isso, não é exagero afirmar que se a Itália teve o pintor Caravaggio e o escultor Bernini como principais expoentes do Barroco,Minas teve Aleijadinho, cujas obras também são apreciadas no mundo inteiro.  Ele é personagem importante da história da arte brasileira, e considerado artista símbolo da arquitetura e da escultura de estilo barroco no país. 

Entre o sagrado e o país que nascia

Filho de mãe negra escravizada, chamada Izabel e do também escultor e mestre de Obras português, Manoel Francisco Lisboa, que chegou a Vila Rica, em 1720, Aleijadinho condensou na própria biografia às contradições que moldaram o Brasil.

As marcas da doença que o deformou a partir de 1777, atribuída por pesquisadores à hanseníase ou à sífilis, não impediram que produzisse uma obra vigorosa. O cinzel amarrado às mãos por seus auxiliares virou mito, mas também metáfora perfeita: a arte como superação do limite físico e social, além da mestiçagem como elemento de brasilidade.

O conjunto dos Doze Profetas, em Congonhas, e o icônico  Passos da Paixão, além do traço inconfundível da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (foto), considerada por especialistas como “a obra-prima do mundo luso-brasileiro”, representam aquilo que o modernismo brasileiro viria, um século depois, a buscar: uma identidade estética própria, mestiça, de invenção genuinamente nacional. A  obra de Aleijadinho, conforme especialistas, tem intensidade espiritual e teatralidade emocional.

Foto: Igreja de São Freancisco – Willian Dias/ ALMG

Legado que pulsa na arte contemporânea

A reverência ao mestre alcança artistas de múltiplas linguagens. Entre eles, o poeta e artista visual Joel da Paschoa, de João Monlevade, que dedica a Aleijadinho o poema “Em homenagem ao Mestre, meu Barroco” e obras em tela de técnicas mistas. As peças são marcadas por sensorialidade e espiritualidade e ecoam o mistério das talhas setecentistas, além do imaginário mineiro que atravessa séculos. Confira:

“Os versos que fiz 

Pura imagem 

Meu universo 

A concha barroca 

Os degraus da fé 

A auréola dos Santos 

Anjos querubins 

Serafins arcanjos 

Na procissão celeste 

Ataíde pintou 

Aleijadinho esculpiu 

O Sacro Profano 

O dourado das talhas 

Ouro ouro 

Puro sangue 

O negro 

Aromas incendiários 

Dos incensos : o transe 

Subir aos céus 

Gozar na terra 

O voou sobre as igrejas 

Asas pombos anjos 

Minas muitas 

Gerais 

Eu peregrino 

De mim… 

Sei que Marília e 

Adélia me entendem 

Meu coração sepultado num jardim 

Caipira ao meio-dia 

Entre dálias 

Um dia estarei 

Com meus pais 

Dormindo 

Mais nada. 

As montanhas sabem 

Guardar segredos. 

Minas Monlevade 

Um dia fui”.

Joel da Paschoa

Telas sobre papéis: Interferências, apropriações, resgates, invocações (técnica mista)

Joel da Páschoa

A gestão do gesto
Epifanias
De uma certa maneira um olhar
Construído e constituído pela busca de se fazer presente o que não é distante : a nossa busca da identidade…um caminho…uma resenha no campo plástico -poético teórico nessa investigação das entrelinhas do que foi passdo e se faz presente…passos
Caminhos ligados
interligados
Um caldeirão cultural social
Religioso
Movimentos que se gestam pela alquimia barroca/mineira
Espólio herança
Viva
Minas/ Brasil
Nascemos Império
Barroco Alma
No fundo
Inclassificáveis
O verbo a carne
O sangue
Antes que tardia

Joel da Páschoa

O poema e as obras de Joel da Paschoa conjugam, a tradição barroca, a ousadia, a espiritualidade e a memória afetiva de um Brasil profundo, reforçando que Aleijadinho não é apenas patrimônio histórico, mas fonte perene de inspiração artística e cultural para o país que se reinventa a partir de suas raízes mais autênticas.

Celebrar Aleijadinho é sempre reafirmar a importância de preservar e reconhecer uma arte que transcende seu tempo e permanece pulsante no imaginário e na alma brasileira. Assim, sua memória segue viva e atual, inspirando o presente e o futuro da cultura nacional. Até hoje, mais de séculos anos após sua morte, o mestre barroco e sua obra, permanecem como um farol para a arte e identidade brasileiras, inspirando gerações de novos artistas.

Confira as principais obras do Aleijadinho

Em Ouro Preto

Igreja de São Francisco de Assis (risco geral, risco e esculturas da portada, risco da tribuna do altar-mor e dos altares laterais, esculturas dos púlpitos, do barrete, do retábulo e da capela-mor);

Igreja de Nossa Senhora do Carmo (modificações no frontispício e projeto original, esculturas da sobre porta e do lavatório da sacristia, da tarja do arco-cruzeiro, altares laterais de são João Batista e de Nossa Senhora da Piedade);

Igreja das Mercês e Perdões ou Mercês de Baixo (risco da capela-mor, imagens de roca de são Pedro Nolasco e são Raimundo Nonato);

Igreja São Francisco de Paula (imagem do padroeiro);

Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias (quatro suportes de essa);

Igreja de São José (risco da capela-mor, da torre e do retábulo);

Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus de Matosinhos ou de São Miguel e Almas (estátua de são Miguel Arcanjo e demais esculturas no frontispício);

Igreja de Nossa Senhora do Rosário (imagem de santa Helena); e as imagens de são Jorge, de Nossa Senhora, de Cristo na coluna e quatro figuras de presépio hoje no Museu da Inconfidência.

Em Barão de Cocais

Igreja Matriz de São João Batista. A portada é coroada com elementos em pedra sabão e uma imagem do padroeiro, obra atribuída ao Aleijadinho, que participou do projeto do Santuário e deixou suas marcas no desenho da fachada e na solução ousada para a época, posicionando as torres diagonalmente em relação ao corpo da igreja.

Em Congonhas

Igreja matriz (risco e escultura da sobre porta, risco do coro, imagem de são Joaquim).

Em Mariana

Chafariz da Samaritana.

Em Sabará

Igreja de Nossa Senhora do Carmo (risco do frontispício, ornatos da porta e da empena, dois púlpitos, dois atlantes do coro, imagens de são Simão Stock e de são João da Cruz).

Em São João del-Rei

Igreja de São Francisco de Assis (risco geral, esculturas da portada, risco do retábulo da capela-mor, altares colaterais, imagens de são João Evangelista);

Igreja de Nossa Senhora do Carmo (risco original frontispício e execução da maioria das esculturas da portada).

Em Tiradentes

Matriz de Santo Antônio (risco do frontispício).

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