* Com informações de Iara Balduíno – Repórter da Agência Brasil
Após mais de cem de anos do nascimento do músico, reportagem lembra uma trajetória marcada pelo rádio, pela composição e pela formação de gerações de violonistas
O violonista, compositor e arranjador, Dilermando Reis, faria 110 anos neste dia 22 de setembro. Ao longo de sua vida e em sua obra, ajudou a transformar o violão solo em uma das expressões mais populares da música brasileira, influenciando gerações de músicos e criando a identidade musical do país.
Nascido em Guaratinguetá (SP), em 22 de setembro de 1916, Dilermando cresceu em uma família ligada ao violão. Filho de violonista, começou a aprender o instrumento ainda criança. Aos 18 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde iniciou a carreira profissional como professor em lojas de instrumentos musicais. Porém, foi no rádio, que sua música encontrou um público muito maior.
Em 1935, Dilermando começou a trabalhar na Rádio Guanabara e, posteriormente, na Rádio Transmissora, onde apresentou um programa de violão solo. Naquele período, a presença de um violonista conduzindo sozinho um programa radiofônico era uma novidade. Em 1940, contratado pela Rádio Clube do Brasil, criou aquela que é considerada a primeira orquestra de violões de que se tem notícia no país. A experiência ajudou a ampliar as possibilidades do instrumento e consolidou sua presença no cenário musical brasileiro.
A “voz do violão” no rádio
A relação de Dilermando com o rádio alcançou outro momento importante em 1956, quando estreou na Rádio Nacional o programa Sua Majestade, o Violão. A atração permaneceu no ar por 13 anos e fez do músico uma presença conhecida em milhares de lares brasileiros. Era um período em que o rádio tinha enorme força na formação do gosto musical do país. Antes da televisão ocupar o espaço que conquistaria nas décadas seguintes, era principalmente pelo rádio que compositores e intérpretes chegavam às casas brasileiras.
Dilermando soube ocupar esse espaço com um instrumento que, até então, muitas vezes aparecia como acompanhante. Em suas mãos, o violão assumia o protagonismo. Além de interpretar, ele compôs e gravou. Entre suas obras estão a valsa Se ela perguntar e o choro Dois destinos. Também contribuiu para que composições de outros autores alcançassem um público maior, como Abismo de Rosas, de Canhoto. Sua discografia reúne obras próprias e interpretações de diferentes compositores, formando um registro importante de uma determinada maneira de compreender e executar o violão brasileiro.
Uma influência que atravessou gerações
Dilermando Reis morreu em 1977, aos 60 anos, vítima de problemas cardíacos. Sua trajetória, porém, não terminou com sua morte. A influência sobre os violonistas brasileiros permanece. O músico ajudou a estabelecer uma linguagem própria para o violão solo e tornou o instrumento mais próximo do grande público por meio do rádio, dos discos e das apresentações. “Todo mundo do violão-solo no Brasil conhece Dilermando”, afirma o violonista Alessandro Borges, que há mais de duas décadas pesquisa o repertório e a trajetória do compositor. Para Borges, manter essa obra em circulação é também uma forma de reconhecer uma parte importante da história da música brasileira.
Homenagem
Nesta terça-feira (22), data que marca os 110 anos de nascimento de Dilermando Reis, o Clube do Choro de Brasília recebe o espetáculo Especial Dilermando Reis – 110 anos: Sob o Céu de Brasília. O concerto será apresentado pelo violonista Alessandro Borges, com participação especial da cantora Pilar Acosta. O repertório revisita a obra de Dilermando e procura aproximar o público contemporâneo de uma produção que atravessou diferentes gerações.
A homenagem acontece em um momento em que a obra do músico ganha novo olhar. Mais do que recordar um artista consagrado do passado, revisitar Dilermando Reis é reencontrar uma época em que o rádio aproximava músicos e ouvintes, em que o violão conquistava espaço como instrumento solista e em que determinadas melodias se transformavam em parte da memória afetiva de um país. Um século depois de seu nascimento, seu violão continua “falando”. E talvez essa seja uma das formas mais duradouras de permanecer na história.



