Conversa de abertura do festival se transforma em sarau drummondiano marcado pela comoção diante da chacina no Rio de Janeiro
O 5.º Festival Literário Internacional de Itabira – Flitabira – começou de forma intensa e simbólica nesta quarta-feira (30). Após a cerimônia de corte de fita que abriu oficialmente o evento, os curadores subiram ao palco para o primeiro diálogo da programação. O ato rapidamente se transformou em um sarau drummondiano de luto, poesia e resistência.
Os ecritores Bianca Santana, Jeferson Tenório e Sérgio Abranches, sob a mediação de Afonso Borges, idealizador e presidente do festival, discutiam o tema central da edição: “Literatura, Encruzilhada e A Rosa do Povo”. Em meio a leitura de poemas, a realidade adentrou a conversa inevitavelmente.
Ontem (28), véspera da abertura do evento, o Brasil foi abalado pela maior chacina policial da história do Rio de Janeiro. A operação conjunta nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte, resultou em mais de 120 mortes. Entre essas, quatro policiais, segundo dados oficiais divulgados pelo governo fluminense.
O episódio, que paralisou escolas, transportes e as vidas na cidade do Rio de Janeiro, trouxe à mesa de Itabira a urgência de se falar sobre o país e suas dores. As palavras necessárias diante da tragédia vieram dos versos do poeta Drummond. “Por que morrer em conjunto?/ E se todos nós vivêssemos?”, questionou o poeta há 80 anos, mas cujos versos estão atualizados diante da centena de mortos pela polícia.
Na abertura do Festival, em sessão com autoridades, Afonso Borges falou do episódio. “A ideia que norteia o festival é a questão da encruzilhada. Hoje, ao entrar nesse teatro, pensei em dizer tanta coisa, e fomos pegos pelo que está acontecendo no Rio de Janeiro”, declarou o presidente do Flitabira. “Se a literatura não tiver o papel de compor um cenário com o que está acontecendo com o Brasil e com o mundo, não vale a pena reunir tanta gente. Nós, como pessoas democratas, prezamos pela ética, pela condução de comportamento humano. Nós, escritores, sabemos o quanto isso é difícil”, afirmou.
Na mesa da noite, de mão em mão, “A Rosa do Povo”, livro que completa 80 anos em 2025 e tema do Festival, conduziu momento de leitura e emoção Afonso Borges abriu o sarau com as duas primeiras estrofes de “O Medo”. Bianca Santana, visivelmente tocada pela lembrança da chacina, iniciou “Passagem da Noite”, mas interrompeu a leitura, emocionada. Jeferson Tenório escolheu “À procura da poesia”, poema que reafirma o ofício dos poetas.
Após breve conversa, Bianca decidiu reler “Passagem da Noite” desde o início. O gesto foi simbólico: ler versos de Drummond em Itabira, sua terra natal, diante do eco da violência, tornou-se também um ato de coragem e de esperança. Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, “A Rosa do Povo” reflete a tensão entre o medo e o sonho de um mundo mais humano.
O livro ressurge como espelho de um Brasil que ainda vive sob a sombra da desigualdade e da dor. No entanto, a arte e a Literatura buscam reinventar a esperança e levar luz em tempos sombrios, seja na Guerra em 45, seja nas guerras de 2025. “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão”, escreveu Drummond. No palco de sua cidade natal, essas palavras voltaram a florescer, entre a tristeza do presente e a promessa de um futuro mais justo.
Sobre o 5.º Flitabira
O Festival Literário Internacional de Itabira é patrocinado pela Vale, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, e conta com o apoio da Prefeitura de Itabira. Com entrada gratuita e programação para todas as idades, o evento reúne debates literários, lançamentos de livros, contações de histórias, apresentações artísticas, oficinas e projetos.
📍 Local: Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade e avenida lateral
📅 Data: 29 de outubro a 2 de novembro
📺 Transmissão online: YouTube @flitabira





