O pré-carnaval de João Monlevade, realizado nos dias 7 e 8 de fevereiro, confirmou mais uma edição de sucesso e reafirmou a força do Carnaval como expressão popular, memória coletiva e ocupação democrática das ruas. Promovido pela Prefeitura, por meio da Fundação Casa de Cultura, o Esquenta Monlé chegou ao seu quarto ano consecutivo em 2026. O evento apresentou um novo formato e maior integração entre a avenida Castelo Branco, a avenida Wilson Alvarenga e as praças do centro da cidade.
Com programação diversa e gratuita, a festa reuniu blocos tradicionais, atrações voltadas ao público jovem, espaços dedicados às crianças e uma variedade de ritmos que passearam pelas marchinhas, samba, axé, pagode, funk e percussões afro-brasileiras. Um retrato fiel do Carnaval brasileiro, que expressa uma pluralidade de sons, cores e estéticas e que foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio cultural imaterial, justamente por sua capacidade de reunir identidades, histórias e afetos nas ruas.

O sábado (7) marcou a abertura da folia com o Bloco Tomando Rumo, que se concentrou na avenida Castelo Branco e seguiu em cortejo pela Wilson Alvarenga até a Praça do Povo. Ao longo do dia, DJs, bandas de axé, área kids, praça de alimentação e decoração temática atraíram foliões de todas as idades. Ainda no sábado, o Bloco Tineca reforçou o clima de tradição ao levar para a avenida um repertório marcado por marchinhas clássicas, mantendo vivo um dos símbolos mais afetivos do Carnaval.
Bloco da Saudade: Memória, Homenagem e Residência Cultural
O domingo (8) começou com um dos momentos mais simbólicos do pré-carnaval: a apresentação do Bloco da Saudade, que revive o espírito dos grandes carnavais de João Monlevade que marcaram época e presta homenagem ao saudoso “Nova Lima”, figura querida e referência da folia local. Mais do que um bloco, o grupo se consolida como um verdadeiro guardião da memória carnavalesca da cidade.
O Bloco da Saudade nasce da paixão de duas famílias pelos tradicionais blocos de rua que fizeram história nas décadas de 1980 em João Monlevade e que ainda hoje habitam o imaginário popular, como o Bonequinhas de Elite e o Reunião de Bacanas. Essa herança se traduz em um trabalho contínuo de formação e valorização da cultura popular: ao longo do ano, o bloco promove oficinas de percussão, fortalecendo a base rítmica e preparando seus integrantes para o Carnaval. Atualmente, são cerca de 60 ritmistas, que transformam ensaio, aprendizado e convivência em som, ritmo e presença na rua. Com bateria vibrante e repertório que dialoga com a tradição, o bloco mostrou força, organização e identidade, emocionando foliões e reforçando a importância do resgate dos carnavais de rua, quando a cidade se encontrava para celebrar coletivamente. Na sequência, o bloco infantil Chicletinho e Tia Leidy animou pais e crianças, mostrando que o Carnaval também é espaço de iniciação cultural para os pequenos, com fantasias, bolhas de sabão, trenzinhos e muita alegria. Logo depois, a Banda da Folia trouxe metais e percussão para a avenida. Na voz e violão, Rômulo Ras deu o tom revisitando marchinhas e sambas que remetem aos antigos carnavais de salão.
O destaque ficou por conta do músico José Júlio Domingues, o popular Julinho, que, com quase 90 anos, emocionou o público com sua interpretação no saxofone, uma verdadeira aula de história viva da música. Ao longo da tarde, o Bloco da Saudade voltou a se apresentar, reafirmando a potência de um trabalho construído com dedicação ao longo do ano. Em seguida, o grupo Mestra Peta e a Estrondosa misturaram ritmos e mantiveram a energia da festa em alta. A programação de domingo contou ainda com os blocos Parei de Beber, Ninguém Tá Puro e Dú Rolê, que circularam pela região central e pela Praça do Povo, incorporando novas linguagens musicais e mostrando que o Carnaval é, por essência, diversidade e movimento.
Pelo quarto ano consecutivo, o Esquenta Monlé reafirma seu papel como evento cultural, turístico e de convivência entre gerações. Ao ocupar ruas e praças com música, memória e pluralidade, o pré-carnaval de João Monlevade fortalece o entendimento de que festa popular também é patrimônio e que o Carnaval segue sendo um dos mais potentes símbolos da identidade cultural brasileira.




