Sexta-feira 06 de Março de 2026

Fio Máquina: o fio condutor da vida de Monlevade

Por Erivelton Braz

A história da Usina de Monlevade não cabe apenas no tempo de nove décadas. Seus alicerces foram lançados muito antes, há cerca de dois séculos, quando o francês Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade, engenheiro francês, pioneiro e visionário, ousou transformar o ferro em futuro. Ele não apenas introduziu técnicas modernas para a época, como também lançou um modelo de olhar para a siderurgia como possibilidade de desenvolvimento social. Seu nome não foi dado à cidade por acaso. Foi ele quem imprimiu, ainda no século XIX, a marca do pioneirismo industrial europeu em terras mineiras.

Décadas após a morte de Monlevade, em 1872, esse legado encontrou ressonância na figura de Gaston Barbanson, belga de visão estratégica, que conduziu a fundação da Belgo-Mineira. Sua decisão de convencer acionistas a comprar as terras de Monlevade, a Mina do Andrade e semear a ideia de uma grande siderúrgica de aço no local das antigas forjas do francês.

Em 1927, chega ao país, o então jovem e brilhante engenheiro Louis Ensch com o desafio de solucionar problemas na siderúrgica em Sabará. Ele não somente recuperou a unidade como alavancou a construção da Usina de Monlevade. Esse foi o embrião de uma cidade inteira, que nasceria à sombra das chaminés, ao compasso e som das máquinas e ao ritmo das corridas de gusa. João Monlevade, como conhecemos hoje, foi consequência direta desse gesto ousado, que uniu capital europeu, tecnologia de ponta e a força de milhares de trabalhadores.

Mas se a memória precisa ser justa, é impossível silenciar a contribuição de tantos que não tiveram seus nomes gravados nas placas de fundação. Nos primeiros tempos, foram os africanos escravizados que suportaram o peso das forjas de Monlevade e do ferro em brasa, abrindo caminho com dor e suor.

Mais tarde, vieram os imigrantes de diversas partes do Brasil e do mundo. De cidades vizinhas do Médio Piracicaba, de Minas Gerais e do Brasil, além de países como Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Alemanha, dentre outros. Foi dessa mistura de etnias, saberes e culturas que foi forjada a alma de João Monlevade.
A cidade, portanto, é fruto de uma mistura cultural. Passando pela religiosidade dos mineiros, do sotaque dos “gringos e da alma de quem queria construir o futuro. Todos trouxeram não só força de trabalho, mas também memória, identidade e modos de vida que se entrelaçaram no tecido social monlevadense.

O aço, mais que produto, é metáfora. O fio-máquina, símbolo maior da Usina de Monlevade que celebra 90 anos no próximo dia 31 de agosto, é também o fio da vida da cidade. Ele alimenta não apenas a economia, mas também os sonhos: é dele que brota o sustento das famílias, o movimento do comércio, a vitalidade das escolas e o horizonte das novas gerações. A cada rolo de fio produzido, rola junto a história de um povo que aprendeu a transformar ferro em pão e siderurgia em destino coletivo.

Fio-Máquina


Comemorar os 90 anos da Usina é reconhecer que João Monlevade é filha legítima do aço. Uma cidade que nasceu da fábrica, mas que não se limita a ela. Aqui, a modernidade industrial se misturou com a simplicidade da vida interiorana, criando um espaço singular, onde a memória e a inovação caminham lado a lado.

Mais que um marco empresarial, a celebração da data é um ato de memória e de identidade. Ela reafirma que o que sustenta Monlevade não são apenas estruturas metálicas ou relatórios de produção, mas uma obra coletiva, feita de suor, esperanças, sacrifícios e cultura. Um fio que não se rompe. Mas que liga o passado de ferro ao presente de aço e se estende, resistente, em direção ao amanhã.

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