Sexta-feira 06 de Março de 2026

Palavra que Fere: Projeto escolar em Monlevade expõe violências invisíveis ou nem tanto assim

Em um momento em que episódios de violência simbólica e discursos de ódio se tornam cada vez mais frequentes, tanto na escola, nas ruas ou nas redes sociais, um projeto desenvolvido na Escola Estadual Dr. Geraldo Parreiras, em João Monlevade chama atenção pela abordagem sensível e pedagógica. Conduzido pelo professor de Língua Portuguesa, Sânede Geraldo Teixeira, no âmbito do Mestrado Profissional em Letras (ProfLetras/UFMG), o trabalho propõe aos estudantes uma reflexão profunda sobre o poder das palavras e o impacto que elas exercem na vida das pessoas.

Imagem ilustrativa

A atividade, conforme o professor, começou com um exercício de escuta e memória. Divididos em grupos, os alunos escreveram, em primeira pessoa, relatos de situações de preconceito, violência verbal ou manifestações de ódio que tenham presenciado, ouvido ou vivido. São experiências comuns, muitas vezes tratadas como “brincadeiras”, mas que deixam marcas emocionais duradouras.

Em seguida, esses relatos foram reconstruídos coletivamente em terceira pessoa, transformando-se em seis narrativas ficcionais. As histórias que, embora inventadas, refletem acontecimentos reais do cotidiano vivido e ou percebido pelos alunos, além de escancararem como pequenas violências podem moldar trajetórias, silenciar subjetividades e comprometer relações de convivência e respeito.

O objetivo da proposta é dar visibilidade às múltiplas formas de discriminação que ainda persistem, especialmente, no ambiente escolar e digital, e estimular uma postura crítica diante do uso da linguagem. A iniciativa integrou também uma visita dos alunos à redação do jornal A Notícia, ampliando o debate sobre responsabilidade discursiva, ética comunicativa e o papel social da palavra.

As histórias reunidas neste trabalho mostram o que acontece quando o que deveria ser leve vira agressão. Ao expor essas situações, o projeto reafirma que reconhecer, nomear e discutir essas violências é fundamental para construir ambientes mais saudáveis, empáticos e humanos. Confira o texto produzido pelos alunos da turma 201.

Quando a “brincadeira” vira violência

            Gustavo sempre foi visto como esquisito, por causa do seu jeito. Calado, com os braços quase sempre cruzados, parecia ter uma corda prendendo sua boca. Muitos o julgavam como alguém de mente limitada e, com o tempo, ele começou a acreditar nessas palavras. Tudo o que engolia em silêncio parecia pressioná-lo por dentro, como se uma chama acorrentasse seus pensamentos e roubasse sua liberdade e curiosidade. Seu mundo foi encolhendo, tornando-se um lugar cada vez menor e assustadoramente solitário.

            No recreio, Marina foi alvo de um comentário preconceituoso na escola. Estava sentada, quieta, quando uma colega fez uma piada sobre sua aparência em voz alta, para que todos ouvissem. Ela fingiu não se importar, mas por dentro se sentiu profundamente ferida. A frase, que durou poucos segundos, continuou ecoando em sua mente por muito tempo, diminuindo quem ela acreditava ser. Sem saber como reagir, ela engoliu o sentimento e percebeu como uma brincadeira pode deixar marcas invisíveis.

            Rafael nunca esqueceu o dia em que viu um aluno mais novo ser zoado por causa do seu sotaque paulista. No recreio, alguns meninos mais velhos imitavam o seu jeito de falar e riam como se fosse uma piada. O menino, visivelmente constrangido, abaixou a cabeça e saiu rapidamente do pátio. Depois disso, Rafael passou a notar que o garoto ficava sozinho no intervalo, sem conversar com ninguém. Aquele episódio mostrou como uma brincadeira de mau gosto pode transformar a escola em um lugar de isolamento e sofrimento.

Nas redes sociais, Marina acompanhou uma situação que a marcou profundamente. Uma jovem havia postado uma foto simples, mostrando sua maquiagem, mas recebeu um comentário anônimo atacando sua aparência. Escondido atrás da tela, o agressor lhe causou grande constrangimento. Observando o perfil da menina, Marina percebeu que, depois desse episódio, as fotos e os vídeos mudaram, ficaram mais tímidos, contidos e inseguros. Ela então entendeu como o discurso de ódio online é perigoso e como o respeito precisa existir também do outro lado da tela, mesmo quando muitos ainda tratam a internet como uma terra de ninguém.

Em uma apresentação de trabalho, Ana estava muito nervosa. Quando começou a falar, a voz falhou e alguns alunos riram de sua timidez. Ela tremeu, chorou e saiu envergonhada da sala. O professor não fez nada, e o silêncio diante da cena deixou tudo mais constrangedor. No dia seguinte, ao entrar em sala, Ana sentiu os olhares sobre ela, acompanhados de risos e piadinhas. A sala de aula se tornou um lugar hostil para Ana, justamente quando tudo o que ela mais queria era acolhimento.

Essas estórias são inventadas, mas acontecem todos os dias. Quando a brincadeira vira violência, ela humilha e silencia quem mais precisa ser ouvido. Reconhecer essas situações é o primeiro passo para romper o silêncio e construir espaços onde a palavra possa acolher, respeitar e transformar.

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