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Por Wir Caetano (*)
“Devemos reconhecer que não há uma consciência da preservação dos documentos que permitem escrever esta história e muitas dessas publicações começam dizendo sobre a dificuldade de ter acesso às fontes de pesquisa”.
Essa frase é do historiador Antonio José Marques, coordenador do Centro de Documentação e Memória (CEDOC) da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Ele me fez essa afirmação em 2007, em uma entrevista sobre projetos de memória sindical. Importante atentar para a referência à atividade de “preservar documentos”. O desafio da preservação e, mais ainda, da gestão de registros documentais foi salientado também por outros profissionais do ramo em visitas técnicas que fiz na época, na capital paulista, guiado pelo historiador. Eu estava à frente do projeto de memória do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade (Sindmon-Metal).
Falta de equipe técnica adequada (gente de áreas como arquivística e história), além de solidez orçamentária para manutenção de infraestrutura para preservação e manejo de documentos de múltiplas naturezas – esse é um entrave que, mais cedo ou mais tarde, leva à morte muitos projetos de memória.
Minha própria experiência no Sindmon-Metal e outras de que tomei conhecimento iniciadas em João Monlevade esbarraram no mesmo problema: carência das tecnologias sociais da memória. E que tecnologias são essas? As arroladas acima: recursos materiais e humanos com a necessária expertise.
Colher depoimentos – a tão produtiva história oral – para registrar a história é importante mas não suficiente. As lembranças têm suas lacunas e é fundamental complementá-las com outros registros (documentos físicos ou virtuais) sempre que possível.
Montar um banco de dados virtual também não é processo consistente sem a adequada metodologia e eficiente ferramental técnico. Parcerias institucionais podem ajudar nesse trabalho. A memória é em si mesma uma tecnologia social. E depende de articulação coletiva de outras tantas para não evaporar.

(*) Wir Caetano é jornalista, letrista de música/poeta e produtor cultural. Dedica-se também à fotografia. Coordena, com o cantor Toni Julio, o projeto musical Migrações/Migrazioni, de conexão Brasil/Itália.




