Prêmio Louis Ensch Em Nome da Memória – 3° Lugar

Em terceiro lugar, a crônica “Nem caçar , nem pescar, só amar”,, de Cibele Sena, apresenta um (re)encontro amoroso de um casal em espaços emblemáticos da cidade: o Floresta Clube, antigo Caça e Pesca, que tem papel fundamental na história local. Amor, memorias, saudades dão tom da narrativa. Leia:

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Cibele Sena

NEM CAÇAR, NEM PESCAR. SÓ AMAR

Sentado ali na beirada do meio-fio estava Antônio José, numa mão segurava uma garrafa de vinho (de algum nome que ele nem tentou pronunciar) e na outra o cachecol roxo de Dona Cotinha. Ainda eram dez horas da manhã mas o pé batucava cada vez mais rápido e alto no chão, como se quisesse apressá-la, de onde quer que ela estivesse vindo. Cogitou que ela pudesse não aparecer, porque mesmo que estivesse enlouquecendo (de saudades, de amor ou de velhice), ele sabia que em algum momento ela não viria mais. Foram cinco longos anos sem um sinal sequer. Antônio chorava quando acordava, quando cozinhava, quando saía, quando voltava, quando dormia.


Às dez e vinte Dona Cotinha chegou e Antônio mais do que depressa já foi falando “Vamos andando, minha veia. Hoje fazemos 50 anos de casados e não é porque você morreu e virou fantasma que não vamos comemorar”. Começaram a andar naquele passo meio lento meio manco, observando tudo ao redor: a rua que um dia já foi movimentada por famílias gigantescas de operários, amigos de longa data, que um a um foram-se indo junto com Dona Cotinha. Ruas onde crianças corriam descalças e mães faziam bolos cheirosos. As janelas que agora só ficam fechadas, mas que antes eram cheias de plantas, cortinas coloridas e mulheres com cabelos cheios, esvoaçantes e risadas altas cheias de vida.


“Cê lembra minha véia? Nós dois saindo ali de dentro da Matriz, um calor danado, cê botou aquele vestido branco pesado e eu só pensando como que eu ia conseguir tirar tanto de trem que cê tava por baixo de saia”. Dona Cotinha deu aquela risada safada, aquela risada gostosa, mas que Antônio não sabia se era delírio ou segunda chance de ser feliz na vida. Passaram pela Matriz São José Operário em silêncio, um tanto pelo respeito e o outro tanto pela admiração de tamanha belezura em forma de igreja. “Ahh minha véia, podíamos ter vindo aqui mais vezes, mas a vida passou rápido demais, criamos família, filho, neto, quase bisneto e mesmo assim eu queria mais umas três décadas dividindo a vida com você…”.


Foi cansaço, bufada e as mãos dadas com o vento, mas finalmente chegaram ao destino final. Antônio pediu licença ao porteiro e insistiu em pagar duas entradas: “Eu sou mais velho que você, faz favor de pegar esse dinheiro e me deixa entrar, não tá vendo que vim comemorar?”. Já era quase meio dia, o porteiro só queria almoçar, bufou qualquer coisa e deixou Antônio subir.


“Hoje minha véia…” – Antônio meio que chorou ou meio que sorriu – “Hoje não tinha como ser outro lugar. Porque fui bem aqui, há 50 anos, naquela folia barulhenta e cheia de gente, que eu vi seu vestido vermelho cheio de bolotinha preta e pensei: ‘Aquela muié vai ser minha’. Então dançamos: eu pisando no seu pé, você perguntando se eu caçava ou pescava, porque se era Clube de Caça e Pesca, um dos dois eu tinha que fazer. Rindo, eu disse que nem um, nem outro, que eu só vim curtir a folia de carnaval e que tinha medo de tiro e não comia peixe. Cê riu alto e me puxou pelo salão. A música alta, o forró tocando e nós dois girando até seguirmos caminho afora pra ver bicho, peixe, onça… e eu te contar aquela mentira: que tinha um leão no alto da trilha, só pra te beijar um pouco, enquanto a gente ouvia de longe as araras e maritacas gritando no viveiro”. Dona Cotinha ouvia tudo atenta, serena e com um sorriso – mostrando que entendia, mas que não ia (ou não conseguia) dizer nada.


Antônio falou, andou, subiu, chorou, queria mesmo era chegar ao balanço que naquela época nem existia, mas que anos depois os dois foram namorar escondido no Clube e algum dos cinco filhos foi feito ali mesmo. Mais quinze minutos andando e apareceu a paisagem que hoje – depois de uns bons anos sendo apenas memórias esquecidas – era um parque colorido, bonito e cheio de vida.
Ele estendeu o cachecol naquela grama molhada e deu uma batidinha pra Dona Cotinha sentar. Silêncio, e um bocado de passarinho cantando, piando e comemorando o dia com eles.


“Abra o vinho não, meu véio. Já tá na hora de voltar pra casa”, Dona Cotinha finalmente falou. E no meio daquele parque verde e colorido, com o sol queimando as bochechas enrugadas, Antônio deitou no cachecol e foi-se embora com sua véia.

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