(*) Wir Caetano
Na noite de 22 de maio de 1981, o poeta Adão Ventura chegou à Faculdade de Educação de João Monlevade, no prédio da antiga Escola Estadual Santana. Sua vinda foi articulada por três jovens que editavam uma pequena revista literária, de nome REBU: Geraldo Magela, Joel da Páschoa e eu. O bisneto de escravizados, nascido em Santo Antônio do Itambé em 1939, trazia na bolsa uma joia que, naquela data, era lançada em nossa cidade: o livro A COR DA PELE (1980).

Rebu: Convite para o lançamento do livro de Adão Ventura em Monlevade
O evento passou despercebido, mas não deveria. Quem viera à cidade é um dos maiores poetas brasileiros do século 20 dentro e fora do universo da literatura de autoria negra. O escritor e crítico literário Silviano Santiago escreveu que “Cruz e Souza [o grande simbolista] e Adão fazem legítima poesia ao mesmo tempo que fazem excelente poesia negra”. Esse artigo de Santiago – publicado originalmente na Folha e São Paulo em 1981 – está presente em “A Cor da Pele – Poesia Reunida” (Círculo de Poemas – Editora Fósforo, 2025), reunião de sete livros (incluindo uma antologia póstuma) do poeta morto em 2004, organizada pelo jornalista e também poeta Fabrício Marques “.
Conforme frisa o posfácio escrito por Marques, três vertentes marcam a obra “múltipla e aberta” de Adão Ventura: “a primeira, mais experimental, dialogando com as vanguardas do século passado; a segunda, uma face engajada com as questões sociais e raciais; e uma terceira, em que expressa uma visão lírica das manifestações do sagrado em Minas”.

Consciência política
O poeta que escrevia textos de inspiração surrealista, com certo hermetismo, como a prosa do livro “Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul” (1980), viveu em 1970 um acontecimento que provocou uma guinada em sua trajetória literária.
Graduado em Direito, Adão trabalhava como revisor no Suplemento Literário de Minas Gerais (SLMG). Era o ano de 1973 quando foi convidado a lecionar literatura brasileira contemporânea na Universidade do Novo México, nos EUA. “Quando retornou a Belo Horizonte, exatamente um ano depois, em 13 de janeiro de 1974, Adão estava transformado”, escreve Fabrício Marques. Assistir de perto às lutas da comunidade negra por direitos civis e conviver com autores tanto dos EUA como de outros países impactaram profundamente a consciência política de Adão quanto à questão étnico-racial e, por extensão, sua poética.
O primeiro livro lançado por ele após essa experiência, “As Musculaturas do Arco do Triunfo”, não refletiu a mudança de postura apenas porque reunia poemas escritos anos antes – obra vencedora em 1972 do Prêmio Cidade de Belo Horizonte. A virada radical ficaria clara em 1980, com “A Cor da Pele”.
Não se tratava apenas de colocar um novo tema na pauta. O poeta mudava os caminhos de sua linguagem, agora seca e direta: “levar o negro ao tronco / e cuspir-lhe na cara // e fazê-lo comer bosta. // levar um negro ao tronco / e sarrafear-lhe a mulher. / levar um negro ao tronco / e arrebentar-lhe os culhões. // levar um negro ao tronco / e currar-lhe no lixo.”
Como que a reverberar a famosa frase do francês Paul Valéry – “o que há de mais profundo é a pele”, Adão Ventura faz da cor da pele “algo de pessoal e intransferível, e ao mesmo tempo algo de coletivo e histórico” (Silviano Santiago no artigo citado acima). No mesmo ano de 1980, o poeta lançou mais um livro, “Jequitinhonha: poemas do Vale”, com a mesma linguagem direta e estrutura concisa. Desta vez, para focar no território, com suas tradições, fé e resistência. É ainda a pele como canal comunicativo entre o individual e o social.
Adão lançou ainda “Texturaafro” em 1992, uma nova edição de “Jequitinhonha: poemas do Vale” em 1997 e “Litanias de Cão” em 2002. O próximo livro, que ele intitulou “Costura de Nuvens”, só foi publicado em 2006, dois anos depois de sua morte.

Poeta Adão Ventura publicou A Cor da Pele em 1980, obra relançada neste ano
Apesar de ter tido tempo de produzir toda uma obra que se situa entre a fina flor da poesia brasileira, o poeta passou anos longe dos olhos da crítica e dos leitores. O lançamento deste “A Cor da Pele – Poesia Reunida” traz de novo para a cena sua coragem e sua maestria. Mais do que necessário neste temos de embates duros. Afinal, o que há de mais profundo é a cor da pele. Essa antologia merece ser lançada em Monlevade, em um diálogo com a iniciativa dos três jovens de 1981.

(*)Wir Caetano é jornalista, letrista de música, produtor cultural, fotógrafo e poeta. Ele edita a newsletter digital “STIL NOVO”, focada, principalmente, em arte contemporânea, questões étnico-raciais e cultura urbana.





