Crédito da Foto: Marley Mello
Artigo por Afonso Torres
Estabelecido no Solar, João Antônio Felix Dissandes Monlevade administrava sua Fábrica de Ferro Monlevade e assim assinava cartas e documentos, como ainda hoje se vê nos arquivos da ArcelorMittal.
O gesto atravessou gerações. Repetiu-se no filho, João Paschoal, e seguiu no neto, Francisco Paes Leme Monlevade, já à frente das Forjas do avô, então sob a Companhia de Forjas e Estaleiros do Rio de Janeiro.
Há mais de dois centenários, este lugar não apenas se chama — se reconhece.
Monlevade.
E foram esses, antes de todos, os primeiros monlevadenses.
O tempo, no entanto, amplia.
E, ao ampliar, mistura.
Em 1921, com a aquisição do Solar pelo luxemburguês Gaston Barbanson, chega também o engenheiro agrônomo Edouard Luja. Sua missão era clara: realizar as primeiras experiências com o plantio de eucalipto, capaz de suprir a ausência de carvão mineral, largamente utilizado na siderurgia europeia, substituindo-o pelo carvão vegetal.
Mas Luja não era apenas técnico. Era também olhar.
E olhar, ali, já era uma forma de permanência.
Um autêntico cientista, e igualmente um escritor de mérito, capaz de observar e registrar sem perder o espanto. Seu Relatório de Viagem ao Brasil, publicado em 1952, é prova disso.
Mais tarde, o engenheiro agrônomo Laércio Osse daria continuidade ao seu trabalho, traduzindo o relatório e publicando-o no jornal O Pioneiro, em 1959.
Entre fornos, matas e homens, Luja observava. E, sem perceber, ajudava a narrar Monlevade. Ao lado de Luiz Prisco Braga, tornou-se um dos primeiros a registrar essa história.
Houve também quem tentasse preservá-la.
Louis Ensch, enquanto administrador da C.S.B.M., reuniu documentos, resgatou registros e buscou vestígios muitos deles junto à família Gomes Freitas.
Mas o tempo, por vezes, não apaga. Ele guarda. E o que se guarda demais… não se perde
afasta-se.
E o que se afasta… deixa de ser vivido.
Durante anos, esse acervo permaneceu restrito ao patrimônio da Belgo-Mineira.
O acesso era limitado.
E disso resultou não exatamente o esquecimento,
mas uma memória à distância — rompida, aqui e ali, por iniciativas isoladas, quase sempre de professoras que insistiam em manter viva a lembrança.
Até que surge alguém que não apenas lembra, mas se envolve.
Nilton de Souza. O Tim.
Nascido em Dom Silvério, mas, em essência, monlevadense.
Porque há quem pertença por origem — e há quem, raramente, pertença por decisão.
Tim escolheu.
Dedicou-se a pesquisar as origens da C.S.B.M., levantou, restaurou e reuniu peças que hoje compõem o Museu Histórico da Usina, ao lado do trabalho do Sr. Virgílio Pastorini.
Mas Tim era mais do que pesquisador. Era voz.
Transformava documento em narrativa. História em presença.
Nos anos oitenta, levou esse trabalho ao público em forma de palestras. Professor, escritor, pintor e historiador, tornou-se referência para todos os que se interessam pela cultura e pela memória da cidade.
Em seus causos e crônicas, exaltava os grandes nomes locais — muitos deles, como ele, vindos de fora, mas profundamente enraizados aqui.
E foi ele, não por acaso, quem melhor nos disse o que somos.
Não como quem define de fora,
mas como quem reconhece por dentro.
É nessa fala que ele está.
E é nela que, de algum modo, também nos vemos.
Em entrevista ao jornal Prezado Senhor (ano I, nº 19, de 1º a 14 de junho de 1988, p. 6), afirmou:
“O monlevadense é um indivíduo com visão cosmopolita, uma mistura de tempo, raça e lugar. Como cidadão político, tem 24 anos. Como cidadão profissional, tem duas idades: uns 52 anos de Belgo-Mineira… e uns 90 anos de Forjas e Estaleiros.
E teria, ainda, uns 170 anos de João Monlevade propriamente dita. Nessa soma, carrega a experiência do francês, do português, do suíço, do americano e, mais tarde, do luxemburguês, do belga, do alemão…
e de toda espécie de raça.
Quer dizer: ele é cosmopolita. Querendo ou não, entra nesse contexto. Está inserido na universalidade.
E, por incrível que pareça, dificilmente se conscientiza de que é monlevadense. Está sempre aqui…
esperando uma oportunidade de partir. Para sua terra. Para a terra de seus pais ou avós.
Ou para terras novas. Parece não se fixar. E esse é um dos problemas sérios de Monlevade.
Não diria que isso é sociologia… mas uma pirraça própria de sua formação histórica.”
Basta ajustar os números e tudo continua atual. Porque, no fundo, ser monlevadense é isso:
permanecer, mesmo quando tudo convida à partida. Alguns passam pela cidade.
Outros… fazem com que ela permaneça. Fica aqui o tributo a quem escolheu permanecer na memória da cidade e fazê-la permanecer em nós.
Obrigado, Nilton de Souza.
Obrigado, Tim-Mirim, Tim-Gorim, “Marco Aurélio”, “Fausto”, “Heleno”.
Gratidão.

(*) Afonso Torres é escritor, pesquisador e artista plástico





