Por Flávia Henriques
O Brasil possui atualmente cerca de 203 milhões de habitantes, conforme estimativa recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Desses brasileiros, pelo menos 1,8 milhão se declararam (IBGE de 2002) como pertencentes às religiões de Matriz Africana. O número cresceu exponencialmente cerca de 1,0% a 1,05% da população do país. Em relação há10 anos atrás, a evolução mostrou que o número de Umbandistas e Candomblecistas triplicou.
Conforme o IBGE, estes números podem ainda serem subestimados, uma vez que muitas pessoas, por temerem o preconceito, não se autodeclaram pertencentes às religiões de Matriz Africana. Em pleno século XXI, esta é a realidade de um povo que apesar de trazer uma carga religiosa e cultural expressiva, convivem com o medo de julgamentos alheios.
Em João Monlevade, não há diferença em relação ao quadro nacional e estadual, uma vez que a discriminação ainda persiste entre pessoas que não são tolerantes e nem se preocupam em conhecer a beleza do sagrado dos terreiros que movimentam a fé dos monlevadenses. Na cidade, pelos menos seis terreiros são frequentados estando localizados geralmente em bairros da periferia. O deslocamento desses terreiros para regiões mais simples é uma forma silenciosa da intolerância e pré-conceito enfrentados pelos pais e seus filhos de santo.
Mas afinal, o que é a Umbanda? Primeiro é essencial saber que as religiões de Matriz Africana são sistemas religiosos originários nas tradições espirituais de povos africanos, trazidos principalmente durante o período da escravidão. Sim, os primeiros batuques surgiram no Brasil nas senzalas espalhadas pelas fazendas de café e cana de açúcar. Tudo isso reflete em parte da cultura brasileira e combinam elementos africanos, indígenas e, em alguns casos, do catolicismo. A Umbanda cultua as entidades que são pertencentes às chamadas falanges. Ou seja, cultuam-se Pretos Velhos, Baianos, Povos das ´Águas (Marinheiros, Pescadores, Marujos), Caboclos, Erês e Ciganos.
Um pouco de história
Por muito tempo houve o sincretismo, hoje menos usual com o empoderamento do povo preto, que ostenta sua ancestralidade, penteados e estilo de vida. O sincretismo nada mais é do que o embranquecimento da fé preta e uma forma de sobrevivência da fé dos escravos por muitos séculos. Os santos católicos foram associados aos Orixás do Candomblé. Proibidos de cultuar suas divindades africanas pela Igreja Católica Colonial, eles associaram seus Orixás a Santos que possuíam características ou histórias de vida semelhantes. Por exemplo: Oxalá tornou-se Jesus Cristo, Ogum (São Jorge), Iemanjá (Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora dos Navegantes em outras regiões do país), Oxum (Nossa Senhora de Aparecida ou da Conceição), Xangô (São João Batista ou São Jerônimo), Oxóssi (São Sebastião), Iansã (Santa Bárbara), Omolu/Obaluaê (São Lázaro ou São Roque), Ibeji (São Cosme e São Damião) e Exú (Santo Antônio), sim, o Santo Casamenteiro.
Ainda hoje, um exemplo vivo do sincretismo que resiste ao tempo é a lavagem das escadarias da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. O ritual é a maior manifestação de sincretismo religioso no mundo e acontece anualmente em Salvador, na Bahia. O Candomblé é uma das mais antigas e tradicionais manifestações religiosas de Matriz Africana. Cada Orixá tem características próprias e está ligado a elementos naturais. Seus rituais incluem cantos, danças, toques de tambor e oferendas (comidas de Santo).
Quando falamos do movimento religioso de Matriz Africana estamos reverenciando uma das religiões mais ricas em elementos e rituais do mundo. Devemos sempre olhar para os seus fiéis como pessoas sedentas de conhecimento e espiritualidade aguçada. Portanto, antes de discriminar, tente ser uma pessoa mais empática e até curiosa para aprender um pouco mais sobre essa Fé que move brasileiros pelo país afora. Axé!

Flávia Henriques é monlevadense, jornalista formada pelo Uni-BH e Umbandista/Candomblecista



