Artigo de Erivelton Braz
No ano em que João Monlevade celebra seus 62 anos, mais do que revisitar datas, é preciso compreender as camadas que formam a identidade dessa cidade, que é única, construída entre o ferro, a chegada da siderúrgica do aço e dos encontros que a diversidade identitária trouxe.
Os caminhos que levaram à formação de Monlevade começaram muito antes de 29 de abril 1964. Pelo menos, mais de duzentos anos antes. Ainda no século XIX, com a chegada ao Brasil do engenheiro francês Jean Antoine Felix Dissandes de Monlevade, inicia-se um processo que mudaria definitivamente a história da região. Ao se estabelecer em Minas Gerais, ele implantou a Forja Catalã, dando início a uma experiência industrial pioneira, criando uma das mais importantes fábricas de ferro daquele tempo.
Mas é preciso dizer que esse marco não foi solitário e não se deve apenas a Jean, o precursor. Para início de conversa, ao desembarcar no Rio de Janeiro, o francês segue para Minas e traz consigo dois escravizados. Ao chegar aqui, foram com os braços, o sangue e o suor de centenas de outros homens e mulheres escravizados que sustentaram a produção inicial do ferro na promissora fábrica. Eles trabalharam na forja, moldando o metal e ajudaram a erguer as bases econômicas da região.
Depois, os povos originários tiveram papel fundamental no processo de expansão da fábrica do francês, a partir de 1827. Foram eles que dominaram os caminhos do rio Doce, auxiliando no transporte de mais de sete toneladas de equipamentos em canoas, até chegar às terras de Jean Monlevade.
Desde sua origem, a história de Monlevade vem de encontros transculturais de forças e saberes distintos. Nas proximidades da forja, formou-se o povoado dos Carneirinhos, habitado por agricultores que tiravam da terra o sustento.
E a história poderia ter continuado assim. Mas foi na década de 1920 que tudo mudou. O rei da Belgica visita Minas e é convencido a investir no Brasil, por Gaston Barbason, presidente da Arbed, um importante grupo siderúrgico daquele país. Após convencer o monarca, Barbanson foi o responsável pela aquisição e expansão das terras de Jean Monlevade.
Neste projeto, coube ao engenheiro luxemburguês, o então jovem Louis Ensch, vir para essa região criar uma usina. Ele implantou a Belgo Mineira e ajudou a estruturar a cidade. Assim a cidade de Monlevade foi planejada com forte presença europeia, especialmente, luxemburguesa e belga.
A partir daí vieram outros imigrantes, trabalhadores de várias partes de Minas e do Brasil, que formaram famílias e trouxeram sua força. Com esses pioneiros, nasceu uma cidade que não se explica apenas pela indústria, mas pela soma de todas as suas presenças.
Essa herança se refletiu não apenas na arquitetura e no urbanismo, mas também no modo de viver. A chamada Cidade Alta, hoje desaparecida, simbolizava esse planejamento, um espaço organizado, funcional, que acabou sendo absorvido pelo crescimento da usina e pela expansão urbana.
Os clubes sociais também contam essa história. O Grêmio, o Ideal e o Social traduzem, até hoje, diferentes momentos e camadas da cidade. Mais do que espaços de lazer, foram pontos de encontro e formação cultural, onde se cruzaram trabalhadores, técnicos, famílias e histórias, revelando uma sociedade em transformação.
Monlevade cresceu assim: entre contrastes. Entre o europeu, os africanos, os indígenas e o mineiro. Entre o aço e a vida cotidiana. Aqui, Jean virou João. E, nesse processo, o sonho estrangeiro se tornou local. As estradas abertas no passado ajudaram a integrar a região, conectando pessoas e criando oportunidades. A cidade deixou de ser apenas um ponto industrial para se tornar um território de pertencimentos e identidades.
Mas talvez o que faça de Monlevade um lugar verdadeiramente único não esteja apenas nos marcos históricos. Está na memória. Naquilo que permanece, mesmo quando desaparece, como a Cidade Alta. Está naquilo que nem sempre foi contado, como a força e a história dos escravizados e dos povos originários. Está naquilo que resiste, como o sentimento de pertencimento de quem vive aqui.
Monlevade é uma cidade de várias camadas, que carrega o peso da sua história, mas também a leveza de quem segue construindo o futuro. E, talvez, o maior desafio seja justamente não perder sua essência multifacetada. Lembrar não é apenas olhar para trás, mas garantir que tudo o que foi vivido continue fazendo sentido hoje para que o amanhã se construa. Aos 62 anos, Monlevade, mais do que nunca, precisa continuar sendo lembrada como ela é: plural, mineira, europeia, africana e indígena. Uma cidade diversa, profundamente humana.

Erivelton Braz é Mestre em Letras,Teoria Literária e Crítica da Cultura, professor de Literatura, jornalista e escritor. Fundador da Rotha Assessoria e editor do Rotha Cultural





