Capela de Sant’Ana e Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, tombadas pelo Iphan desde 1939, apresentam infiltrações, trincas e problemas estruturais; responsáveis têm 60 dias para apresentar projetos de recuperação
Duas das mais importantes referências históricas e religiosas do distrito de Cocais, em Barão de Cocais, estão sob alerta. A Justiça determinou a adoção de medidas emergenciais para preservar a Capela de Sant’Ana e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, imóveis tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1939.
A decisão foi concedida pela Vara Única da Comarca de Barão de Cocais, a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), em uma Ação Civil Pública. O Judiciário reconheceu o risco de agravamento dos danos e de perda irreversível do patrimônio cultural. Laudos técnicos e vistorias apontaram infiltrações, trincas, deterioração de estruturas de madeira, problemas nas coberturas e riscos à segurança dos frequentadores. O quadro teria se agravado com as chuvas recentes e a falta de manutenção adequada.
As duas edificações integram ainda o Núcleo Histórico Urbano de Cocais, protegido por tombamento municipal desde 2007. O inventário de proteção do patrimônio cultural de Barão de Cocais registra o conjunto como bem protegido pelo Decreto nº 12/2007.
60 dias para apresentar os projetos
A liminar determina que a Prefeitura de Barão de Cocais, a Arquidiocese de Mariana e a Paróquia de São José atuem conjuntamente para interromper o processo de deterioração dos imóveis. Os responsáveis terão 60 dias para elaborar e protocolar, junto ao Iphan e ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural, projetos executivos para a recuperação integral das coberturas dos dois templos.
Entre as medidas determinadas estão a revisão das estruturas de madeira, substituição de telhas danificadas, instalação de manta de subcobertura e recuperação dos sistemas de drenagem das águas pluviais. Depois da aprovação dos projetos pelos órgãos responsáveis pela proteção do patrimônio, as obras deverão ser iniciadas. A Justiça determinou ainda a retirada de uma colônia de abelhas instalada na torre da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e a recuperação da estrutura responsável pela sustentação do sino. Em caso de descumprimento, foi estabelecida multa diária de R$5 mil para cada um dos réus, inicialmente limitada a 30 dias.

Prefeitura fala em vistorias
A Prefeitura de Barão de Cocais informou ao portal DeFato Online que mantém diálogo com o Ministério Público e com o Poder Judiciário sobre a preservação dos templos. Segundo o município, equipes da Secretaria Municipal de Obras e Saneamento e da Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (COMPDEC) já realizaram vistorias técnicas nos imóveis. As equipes teriam identificado patologias, vulnerabilidades e necessidades estruturais, com as informações encaminhadas às autoridades. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo também estaria tratando da questão com a paróquia, buscando alinhar soluções para a preservação dos bens.
Tombamento
A situação atual ganha ainda mais relevância quando observada a trajetória dos dois imóveis. Os registros do Iphan apontam que a Capela de Nossa Senhora de Sant’Ana e a Capela de Nossa Senhora do Rosário foram inscritas no Livro de Belas Artes em 8 de setembro de 1939. O tombamento inclui também o acervo dos bens, conforme resolução posterior do órgão de proteção. Isso significa que os templos completam, em 2026, 87 anos sob proteção federal.
A documentação do patrimônio municipal também confirma que os dois edifícios estão inseridos em uma área de proteção mais ampla. O Núcleo Histórico Urbano de Cocais reúne edificações e espaços relacionados à formação do distrito e foi tombado pelo município pelo Decreto nº 12/2007.
Uma paisagem que atravessou séculos
Cocais preserva uma das paisagens históricas mais expressivas da região. Registros históricos e levantamentos sobre o distrito relacionam sua formação aos primeiros anos do século XVIII, período de expansão da ocupação e da mineração em Minas Gerais. A Capela de Sant’Ana está ligada aos primórdios dessa formação. A construção atual remonta ao século XVIII e reúne características arquitetônicas e artísticas que ajudam a compreender a trajetória do povoado.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos carrega outra dimensão da história local: sua trajetória está relacionada à irmandade formada por pessoas escravizadas, negros libertos e mestiços, em uma sociedade marcada pela segregação. O templo preserva características associadas ao barroco e ao neoclassicismo. Um levantamento publicado em agosto de 2026 destaca que Cocais conserva, em poucas quadras, elementos da arquitetura colonial, igrejas históricas, ruas de paralelepípedos e outros vestígios relacionados à formação do antigo povoado. É justamente essa combinação de arquitetura, religiosidade e memória que faz do distrito um importante núcleo de patrimônio cultural no Médio Piracicaba.
Patrimônio
Para o coordenador de Patrimônio Cultural do MPMG, Marcelo Azevedo Maffra, os dois templos são marcos da história de Cocais e o atual estado de conservação representa uma ameaça à sua integridade. “A Capela de Sant’Ana e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos são bens tombados desde 1939, verdadeiros marcos da história e da memória do distrito de Cocais”, afirmou. Segundo ele, a expectativa é que a decisão judicial permita iniciar o processo de recuperação e garantir a preservação dos bens para as próximas gerações.
O promotor de Justiça de Barão de Cocais, Lucas Daniel Duarte de Souza, também ressaltou que o problema vinha sendo acompanhado pelo Ministério Público e que moradores procuraram o órgão em busca de apoio para a comunidade. “A decisão liminar representa um avanço relevante na proteção do patrimônio histórico do distrito de Cocais”, afirmou o promotor, destacando a importância de interromper o processo de deterioração dos imóveis.
Mais do que uma determinação para recuperar telhados, estruturas e sistemas de drenagem, a decisão coloca em evidência uma questão maior: quem cuida de um patrimônio que pertence à memória coletiva? Em Cocais, a resposta agora terá de envolver poder público, Igreja, órgãos de preservação e comunidade. Afinal, preservar Sant’Ana e o Rosário não significa apenas conservar duas construções antigas. Significa manter de pé parte da história de Minas Gerais.



