Sexta-feira 18 de Setembro de 2026

Mulheres negras transformam memória ancestral em patrimônio vivo em Belo Horizonte

Projeto da AIC reúne saberes e práticas de 30 mulheres de grupos e comunidades tradicionais e cria Núcleo de Formação e Memória

Preservar uma cultura também significa garantir que histórias, conhecimentos e práticas transmitidos de geração em geração não desapareçam. É a partir dessa perspectiva que a Agência de Iniciativas Cidadãs (AIC) realiza, em Belo Horizonte, o projeto “Mulheres Negras, Cultura Ancestral: Núcleo de Formação e Memória”, iniciativa que coloca mulheres negras no centro do processo de registro, valorização e transmissão de saberes ancestrais afro-brasileiros.

O resultado de seis meses de trabalho será apresentado neste sábado (29), durante seminário no Conservatório UFMG, no Centro de Belo Horizonte. O encontro começa às 9h30 e terá a entrega do Mapeamento de Saberes e Práticas Ancestrais de Mulheres Negras, além de uma palestra da professora, jornalista e ativista cultural Rosália Diogo, com o tema “Mulheres negras, cultura ancestral e empoderamento”.

Conforme os organizadores, a iniciativa ultrapassa os objetivos de um levantamento documental. O projeto representa uma ação de preservação da memória cultural. Ao registrar conhecimentos que muitas vezes circulam principalmente pela oralidade e pela experiência comunitária, o mapeamento ajuda a evitar que práticas, histórias e referências culturais sejam esquecidas. Ao mesmo tempo, cria possibilidades para que esses saberes sejam compartilhados com as novas gerações.

Mulheres como guardiãs da memória

O Núcleo de Formação e Memória de Belo Horizonte foi formado por 30 mulheres ligadas a dez grupos e comunidades tradicionais da capital, especialmente em territórios periféricos e regiões de maior vulnerabilidade social. Cada uma das representantes indicou outras duas mulheres para integrar o processo. Ao longo do projeto, elas participaram de encontros de formação e contribuíram para a construção de um programa dedicado aos saberes, práticas e fazeres relacionados à ancestralidade afro-brasileira.

O protagonismo das participantes é um dos aspectos centrais da iniciativa. Em vez de apenas serem objeto de uma pesquisa sobre sua cultura, as mulheres participaram diretamente da identificação, organização e valorização dos conhecimentos existentes em seus territórios. “Foi lindo coordenar a construção do Núcleo de Formação e Memória e do Mapa de Saberes Ancestrais. Nós, mulheres negras, fomos protagonistas na construção deste projeto”, afirma Cláudia Magno, coordenadora do projeto.

Segundo ela, a iniciativa permitiu um processo de reconhecimento e fortalecimento. “Agora vamos dar visibilidade ao conhecimento e às práticas ancestrais que foram mapeadas através do seminário e da atividade com as crianças”, destaca.

Memória que passa de geração em geração

A preocupação com a continuidade desses conhecimentos estará presente também em uma segunda atividade do projeto, marcada para 2 de setembro, no CIAME Flamengo. A iniciativa será voltada para crianças, que serão convidadas a construir seus próprios mapas territoriais.

A atividade utilizará duas tecnologias sociais certificadas pela Fundação Banco do Brasil: a Pedagogia da Ciranda, baseada na roda interativa como metodologia ativa, e a Pedagogia da Roda. A proposta reforça uma das dimensões mais importantes do projeto: fazer com que a memória ancestral não fique restrita ao passado, mas seja incorporada pelas novas gerações.

Nesse sentido, o mapeamento funciona como uma ponte entre passado, presente e futuro. Ao reconhecer as mulheres como guardiãs de conhecimentos e referências culturais, a iniciativa contribui para fortalecer identidades e ampliar a presença da cultura afro-brasileira na construção da memória de Belo Horizonte.

Formação e fortalecimento

Além da pesquisa e do mapeamento, o projeto promoveu cinco encontros de formação e ofereceu, como contrapartida, aulas virtuais sobre elaboração de projetos e formalização de grupos de mulheres negras. A dimensão cultural, portanto, está associada também ao fortalecimento social e econômico das participantes. A intenção é ampliar as condições para que coletivos e grupos possam organizar suas iniciativas, acessar oportunidades e dar continuidade às ações desenvolvidas em seus territórios.

Para Cláudia Magno, as formações criaram um espaço de troca e fortalecimento coletivo. O resultado, segundo ela, foi também uma oportunidade de valorizar a existência, a história e a herança cultural das mulheres negras. O projeto é realizado pela AIC em parceria com a Fundação Banco do Brasil, por meio do edital “Empoderamento Socioeconômico das Mulheres Negras”. A iniciativa busca fortalecer identidades ancestrais afro-brasileiras, coletivos culturais e processos de empoderamento socioeconômico e comunitário.

Um patrimônio que não pode ser esquecido

Projetos como o Núcleo de Formação e Memória cumprem uma função que vai além da realização de oficinas ou eventos. Eles ajudam a responder a uma questão fundamental para qualquer sociedade: quem registra as histórias e os conhecimentos que formam sua identidade?

Quando mulheres negras assumem o protagonismo desse registro, suas experiências deixam de ocupar um lugar secundário na narrativa histórica e passam a ser reconhecidas como parte essencial da memória cultural brasileira.

O mapeamento, nesse sentido, é também um instrumento de reconhecimento. Ele registra práticas, trajetórias e conhecimentos que pertencem às comunidades e que podem servir de referência para crianças, jovens, pesquisadores, educadores e futuras gerações.

O seminário deste sábado representa a culminância de um processo, mas não necessariamente o seu encerramento. Ao colocar os saberes ancestrais em circulação e aproximá-los das crianças, o projeto aposta justamente na continuidade. Afinal, preservar a memória não significa apenas olhar para trás, mas garantir que aquilo que uma geração recebeu possa ser conhecido, recriado e transmitido pelas próximas.

Serviço
Seminário Mulheres Negras, Cultura Ancestral: Núcleo de Formação e Memória
Data: 29 de agosto, às 9h30
Local: Conservatório UFMG – Rua Guajajaras, 100, Centro, Belo Horizonte
Participação: mediante inscrição prévia.

Palestra: Rosália Diogo – “Mulheres negras, cultura ancestral e empoderamento”.

A atividade com crianças será realizada em 2 de setembro, no CIAME Flamengo

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