Nas terras de Jean Monlevade, Louis Ensch ergueu a Usina que daria origem à cidade moderna. Noventa e um anos depois, a história iniciada em 1935 integra a identidade do município.
Há uma imagem que talvez diga mais sobre João Monlevade do que muitas páginas de livros. No Cemitério Histórico, em frente ao Social Clube, no Vila Tanque, estão lado a lado dois europeus que viveram em tempos diferentes, mas que foram fundamentais para a história local. Jean Antoine Félix Dissandes de Monlevade, o francês que emprestou seu nome ao lugar. E Louis Jacques Ensch, o luxemburguês que, mais de um século depois da chegada do pioneiro, transformaria aquelas mesmas terras em uma das mais importantes experiências siderúrgicas do país.
É como se a história tivesse decidido colocar os dois vizinhos para sempre. Jean Monlevade chegou ao Brasil em 1817. Ensch veio em 1927. Quando o engenheiro luxemburguês desembarcou no país, fazia cerca de meio século que Jean havia morrido, em dezembro de 1872. Mas a terra continuava carregando as marcas de sua antiga experiência com o ferro.
Ensch chegou para dirigir a Usina de Sabará da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Era engenheiro, formado na Escola Técnica Superior de Aix-la-Chapelle, na Alemanha, e já havia construído carreira na indústria siderúrgica europeia.
A missão brasileira não era pequena: encontrar uma saída para uma empresa que enfrentava dificuldades técnicas e financeiras. Ele não só conseguiu, como alguns anos depois, implantou a Usina de Monlevade.
Em 31 de agosto de 1935, a pedra fundamental da nova Usina em Monlevade foi lançada. Começava ali uma transformação que seria maior do que a própria fábrica.
A paisagem mudaria. As montanhas receberiam estradas, casas, linhas de transmissão, trilhos, equipamentos industriais. Trabalhadores chegariam de diferentes lugares. Vieram também engenheiros e técnicos europeus, especialmente luxemburgueses e belgas.
Aos poucos, aquele lugar se encheu de sotaques, costumes, famílias e histórias. Monlevade começava a ganhar outra forma.
Uma usina que precisava de uma cidade
Talvez seja esse o ponto mais importante para compreender Louis Ensch. Ele não construiu apenas uma usina. Para colocar uma grande siderúrgica em funcionamento naquele lugar, era preciso construir as condições para que as pessoas pudessem viver ali. E foi assim que a história da fábrica passou a se confundir com a história da cidade.
Vieram as vilas operárias, as casas para trabalhadores e engenheiros, as escolas, o comércio, os clubes, os espaços de lazer e as praças. Segundo registros históricos, o projeto chegou a reunir cerca de 3 mil residências.
A chamada Cidade Alta, já extinta, e a Vila Tanque, talvez sejam os melhores símbolos dessa época.
Durante décadas, aquele conjunto urbano foi muito mais do que um lugar para morar. Era um modo de organizar a vida. Ali estavam trabalhadores, famílias, crianças indo para a escola, gente chegando e partindo para os turnos da Usina. Havia o cotidiano de uma comunidade que crescia praticamente ao mesmo tempo em que os altos-fornos começavam a produzir.
Hoje, boa parte daquela paisagem desapareceu. Mas a memória ficou. É assim que uma cidade também é construída: por aquilo que permanece e por aquilo que já não existe.
A mãe de Ensch
Entre as marcas deixadas por Ensch, talvez nenhuma carregue uma dimensão tão humana quanto o Hospital Margarida. Inaugurado em 16 de novembro de 1952, o hospital recebeu o nome da mãe do engenheiro, Marguerite Ensch.
O Hospital Margarida atravessou as décadas e acabou se tornando patrimônio afetivo de Monlevade. Hoje, atende moradores da cidade e de diversos municípios da região.
Um gigante gentil
As lembranças sobre Ensch ajudam a construir uma imagem diferente daquela do grande executivo distante. Antonio José Polanczyk, engenheiro que posteriormente dirigiu a Usina e autor de Louis Ensch e a Belgo Mineira, descreve um dirigente que costumava percorrer as áreas de produção a pé, conversando diretamente com os trabalhadores, fazendo perguntas e observando o funcionamento da fábrica.
Também ficou registrada a sua maneira simples e gentil de tratar as pessoas. Polanczyk o descreve como alguém que não admitia privilégios ou diferenças entre colaboradores por nacionalidade, cor ou profissão.
O último gesto
Louis Ensch morreu em 1953, aos 58 anos. Sua morte interrompeu uma trajetória ainda em plena atividade. A notícia provocou comoção em Monlevade, cidade que já havia aprendido a reconhecer nele mais do que o diretor da Belgo-Mineira.
Seu corpo foi sepultado no Cemitério Histórico, conforme pedido em carta, exatamente naquela terra que ele havia escolhido como lugar de vida e trabalho. Ali está, ao lado de Jean Monlevade.
No dia 31 de agosto, a Usina completa 91 anos. O aço continua sendo produzido. A cidade mudou, cresceu e se reinventou muitas vezes. Mas há histórias que permanecem. A de Ensch é uma delas.



