(*) Dorian Marques
Em um mundo acelerado, onde o descartável substitui cada vez mais aquilo que foi feito para durar, a existência de mestres como Joaquim Geraldo dos Santos, o Joaquim do Balaio, representa um ato de resistência cultural. Morador de São Gonçalo do Rio Abaixo, ele dedica mais de três décadas à arte de transformar a taquara em balaios, cestos, forros e objetos que carregam muito mais que utilidade, mas também memória, identidade e pertencimento.
Seu saber não nasceu dos livros nem de cursos formais. Foi construído na observação silenciosa do pai e do irmão, que dominavam a técnica, mas pouco ensinavam. Coube ao jovem Joaquim aprender sozinho, acompanhando o movimento das mãos e os segredos do trançado. Essa pedagogia do olhar fez surgir uma técnica própria, refinada pela experiência e pela persistência.

Ao observar seu trabalho, percebe-se que cada peça é resultado de um conhecimento ancestral sobre o tempo da natureza. Joaquim conhece o momento certo da colheita, o processo de secagem e a resistência de cada fibra. Seus balaios e cestos não são apenas objetos artesanais; são expressões de uma tecnologia popular desenvolvida ao longo de gerações.
Os padrões geométricos, os losangos, as formas em “M” e o tradicional fundo suspenso revelam soluções práticas construídas para responder às necessidades da vida cotidiana, muito antes da industrialização. A força desse saber está também na relação entre corpo, território e memória. A matéria-prima utilizada por Joaquim é retirada na comunidade dos Borges, território quilombola em processo de certificação. Esse detalhe amplia o significado de seu ofício.
A taquara não é apenas um recurso natural: ela conecta o artesão a uma paisagem cultural marcada por histórias de resistência, permanência e transmissão de conhecimentos entre gerações. Em tempos de produção em massa, o trabalho de Joaquim desafia a lógica da mercadoria descartável. Cada peça exige paciência, técnica e respeito ao ritmo da matéria.

Enquanto divide sua vida entre a construção civil e a arte do trançado, ele mantém vivo um conhecimento que sobrevive graças à dedicação de mestres populares muitas vezes invisibilizados. É justamente aí que surge uma reflexão necessária. O reconhecimento institucional desses saberes costuma chegar tarde, quando muitos mestres já enfrentam dificuldades para continuar produzindo ou transmitir seus conhecimentos.
Preservar esse patrimônio não é apenas valorizar um artesão; é reconhecer que a história de uma comunidade também está guardada nas práticas, nos gestos e nos ofícios que atravessam o tempo. Documentar e difundir o trabalho de Joaquim do Balaio é um compromisso com a memória coletiva. Seus balaios são mais que objetos: são monumentos vivos de uma tradição que resiste. Enquanto suas mãos continuarem a trançar a taquara, a cultura popular de São Gonçalo do Rio Abaixo seguirá pulsando, entrelaçando passado e futuro em cada nó firme, preciso e carregado de história.
(*) Dorian Marques é antropólogo, guia de turismo e morador de São Gonçalo do Rio Abaixo



